ESTUDOS E PESQUISAS


I- As Provas Científicas
II- Algumas Considerações Oportunas sobre a Relação Espiritismo-Ciência
III- A Ciência Confirma o Espiritismo?
IV- A Física Moderna a Caminho da Grande Revelação
V- Neurofisiologia da Mediunidade
VI- A Propósito da Matéria "Psi"
VII- A Teoria das Supercordas
VIII- Há Mesmo Vida "Lá Fora"?



I- AS PROVAS CIENTÍFICAS

Certas pessoas, muitas vezes bem-intencionadas, buscam provas científicas referentes à imortalidade do Espírito, à comunicabilidade deste conosco, à reencarnação e sobre outros pontos fundamentais da Doutrina Espírita. Isso é muito salutar, mas o problema é que, entre essas pessoas, algumas passam toda a existência terrena procurando essas provas, ou melhor, atrás "da prova", e nunca a encontram apesar de terem tido contato com inúmeros fatos que a confirmam. Algumas assim agem por um ceticismo crônico, crentes de bem procederem cientificamente, pois acreditam (aqui elas não são céticas) que um "verdadeiro cientista não tem idéias preconcebidas". Achamos que essas pessoas que passam o tempo todo atrás das provas e continuam insatisfeitas, precisam ser informadas do que vem a ser uma "prova científica". É o que pretendemos mostrar.

Vamos utilizar-nos de um exemplo para ilustrar nossos pontos de vista. E o que escolhemos é a "teoria atômico-nuclear", devido à nossa experiência como pesquisador no campo da Química. O que se segue é um diálogo imaginário (ou não tão imaginário assim) que tivemos com uma pessoa a princípio cética.

Inicialmente ela nos perguntou:

- "Você acredita na existência de átomos e moléculas?"

- "Não só acredito, mas sei que eles existem", respondi.

- "Como você pode provar isso?"

- "Não lhe posso oferecer nenhuma prova como aquelas apresentadas nos tribunais; inclusive nunca os vi, toquei ou mesmo os senti de alguma maneira, nas formas que penso que sejam. O que me faz saber que os átomos e as moléculas existem é um conjunto de evidências experimentais, um conjunto de provas. Nenhuma delas, por si, é suficiente para provar a existência dos átomos ou das moléculas. Vendo a coisa de outra maneira, todo esse conjunto de evidências experimentais ou de experimentos só pode ser explicado, entendido, racionalizado, por meio da admissão da existência dos átomos e moléculas, e essa miríade de experimentos é que constitui "a prova". Cada um dos experimentos, considerados separadamente, pode até ser explicado por outras hipóteses ou teorias, mas até hoje ninguém encontrou nenhuma outra alternativa que desse conta de todo o conjunto de experimentos considerados, a não ser a "teoria atômico-molecular". Um dado experimento pode ser explicado pela hipótese de que a matéria é contínua, alguns outros também, mas há muitos outros que não. Podemos até inventar hipóteses as mais esptapafúrdias, mas com lógica e bom senso percebemos que poderão dar conta apenas de alguns poucos fatos. Não vou citar aqui os experimentos; nas bibliotecas encontramos centenas e centenas deles.

"Ainda mais: como já sei que os átomos e as moléculas existem, como cientista não vou mais procurar provas de sua existência. Vou daí para a frente. Vou realizar experimentos nos quais a priori já considero existentes os átomos e as moléculas, e os resultados têm sido até agora coerentes com isso. Assim procedem também os meus colegas cientistas do mundo todo."

Da mesma maneira que se faz a pergunta sobre os átomos e as moléculas, faz-se também com relação à existência dos Espíritos e a outros pontos que mencionamos no início deste artigo. A resposta que daríamos a essa pergunta seria a mesma dada sobre os átomos e as moléculas: "Não só acredito, mas sei que eles existem." -- "Como você pode provar isso?" -- "Não posso lhe oferecer nenhuma prova, como aquelas apresentadas num tribunal; inclusive nunca os vi, toquei ou mesmo os senti de alguma maneira, na forma que penso que tenham. O que me faz saber que os Espíritos existem é um conjunto de provas (...)." O leitor poderá continuar o diálogo, é só trocar "átomos e moléculas" por "Espíritos". A alternativa para "Espíritos" (como a hipótese da matéria contínua no lugar dos átomos)? É só procurar uma desas muitas explicações "parapsicológicas" que há por aí (o inconsciente, etc.).

Quanto aos novos experimentos, já há uma diferença: são poucos os que vão à frente, a maioria ainda está querendo "provar" que o Espírito existe.

Se as pessoas que buscam provas sobre esses pontos básicos da Doutrina Espírita, após examinarem todo esse conjunto de evidências que a própria Doutrina oferece, além de outras precedentes de fontes não espíritas, ainda quiserem "a prova", é porque continuam desinformadas sobre a atividade científica (ou não a aceitam) ou realmente não querem aceitar nada. Mas isso não acontece apenas com o Espiritismo. Com átomos e moléculas hoje em dia não se pode ser cético, mas com outras coisas... Há pouco ouvi: "(...) afinal de contas, a teoria da Evolução ainda não está cientificamente provada..."

Aécio Pereira Chagas, em "O Reformador", edição de agosto/1977, págs. 232-233.



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II- ALGUMAS CONSIDERAÇÕES OPORTUNAS SOBRE A RELAÇÃO
ESPIRITISMO-CIÊNCIA

A nosso ver, têm ocorrido recentemente alguns abusos que se exteriorizam na forma de afirmações, que acreditamos um tanto descabidas, publicadas em diversos periódicos espíritas e obras diversas. Elas são todas concernentes ao contexto em que o Espiritismo pode ser (pretensamente) inserido no conjunto das ciências modernas. Tais abusos tentam, de uma maneira algo desesperada, não só estabelecer uma possível conexão entre o Espiritismo e as demais ciências ordinárias (principalmente a Biologia, Química e notadamente a Física) como também justificar a Doutrina Espírita diante de tais disciplinas. Nosso objetivo aqui é estabelecer as causas principais de tal movimento, apontando sua prescindibilidade e seu aspecto prejudicial ao Movimento Espírita.

O que move a tentativa acima mencionada de justificar a importância do Espiritismo via ciência, bem como sua possível interpretação científica diante de outras doutrinas científicas são, basicamente, a falta de compreensão do aspecto científico real do Espiritismo, a ignorância em relação ao verdadeiro significado da Ciência (como ela opera e se estabelece) e, de algum modo, um certo gosto por novidades, modernismos e fatos extraordinários.

O aspecto científico do Espiritismo anunciado por Kardec está, ao que parece, longe de ser compreendido em sua última expressão dentro do atual Movimento Espírita. Não compreendendo os ingredientes essenciais e suficientes que identificam uma doutrina como sendo genuinamente científica (ingredientes que o Espiritismo possui completamente), busca-se uma adequação da Doutrina Espírita dentro dos moldes do puro empirismo, ou de outra forma, lançando mão de argumentos em torno do indutivismo ingênuo. Há, de uma maneira ou de outra, um forte apelo ao senso comum. Para avaliarmos completamente o aspecto científico do Espiritismo é necessário o emprego da análise moderna da Filosofia, mais precisamente o ramo que estuda a teoria do conhecimento científico ou Epistemologia da Ciência. Não entraremos aqui nos detalhes dessa análise, aliás um tanto complexa, afirmamos apenas que tal estudo já pode ser encontrado, e indicamos ao leitor o lugar onde encontrá-lo (ver Chibeni, 1988 e 1994).

Uma possível fonte de confusão entre a relação Espiritismo e as demais ciências é gerada, muitas vezes, pela falta de significado preciso para certas palavras. Os exemplos são muitos, um clássico é o da palavra energia. Há diversos significados ligados a essa palavra, e é necessário imenso cuidado em se especificar claramente tais significados. Na Física Clássica, por exemplo, ela designa uma qualidade inerente aos corpos materiais, que permanece latente até que certas condições sejam satisfeitas. Não é infreqüente o uso do termo energia por diversos autores espirituais, mas nesse caso, nenhuma tentativa de associação direta com o significado implicado pela Física pode ser inferido. Existem, entretanto, muitos autores (encarnados, é claro!) que parecem confundir, não poucas vezes, as duas acepções possíveis, sugerindo uma tradução da energia de que falam os Espíritos em termos da energia usada na Física, nossa velha conhecida.

De outras vezes, a precipitada justificativa científica do Espiritismo segue a freqüente moda de justificação científica feita em outras doutrinas, como por exemplo a Teosofia e doutrinas orientalistas (ver, por exemplo, Phillips, 1980). Essa justificativa caracteriza-se por uma tentativa de inserção de certas idéias religiosas, na maioria das vezes de origem oriental, no contexto de recentíssimas descobertas ou modelos da Física contemporânea. É natural que haja pessoas que pensem ser necessário o mesmo procedimento com o Espiritismo. Não compreendem, entretanto, que a Doutrina Espírita já possui uma base científica própria, e que a natureza do fenômeno que ela estuda, bem como o estado atual de nosso conhecimento sobre a matéria não permitem uma conexão tão direta entre a Física, por exemplo, e o Espiritismo. Além disso, é necessário que se saiba que muitos dos modernos modelos da Física (como exemplo, o diversos modelos teóricos de interação entre partículas e campos no microcosmo) sofrem radicais revisões todos os dias. O Espiritismo, por sua vez, tem uma estrutura muito mais estável, porque repousa em fenômenos de caráter mais diretamente observável, sendo suas afirmações de muito maior confiança. É certo que o Espiritismo guarda uma relação com as outras ciências, mas os fatos espíritas, por si sós, já asseguram uma especial independência de seu objeto de estudo com o das demais ciências materiais. Não obstante, essa independência foi muito bem identificada e analisada por Kardec em "O que é o Espiritismo".

Dentro do Movimento Espírita, muitas vezes a anunciação de descobertas gerais das ciências materiais (como a Física, com seus novos modelos acerca do funcionamento do Universo) é feita, em geral, tendo por base obras de divulgação científica (ver Chagas, 1995) que, a nosso ver, pecam por falta de precisão da discussão das idéias, sem contar com a dificuldade inerente de se expressarem conceitos altamente abstratos, muitas vezes (como, por exemplo, a unificação do espaço e do tempo em um contínuo quadri-dimensional, a dilatação do tempo, etc., da Teoria da Relatividade Restrita) em termos de uma linguagem mais acessível ao leigo. Isso implica, idealmente, a tentativa de fazer o não especialista compreender plenamente tais conceitos, tais quais são dentro da teoria em que estão inseridos. É bastante clara a impossibilidade de tal tentativa. Se desprezarmos os erros grosseiros de tradução que muitos textos de divulgação trazem, quando de origem estrangeira, concluímos que eles podem, no máximo, passar ao leitor não especialista uma idéia vaga de tais conceitos. Ora, assim sendo, uma importante questão seria: Que valor pode ter a tentativa de se relacionar conceitos e fundamentos das ciências ordinárias com fundamentos importas de Doutrina Espírita, quando tal intento é feito tão-só baseando-se em textos de propaganda científica? A precariedade de tradução, a dificuldade de expressão apropriada dos conceitos, bem como a transitoriedade das teorias que tais textos podem trazer são suficientes para termos uma idéias clara da resposta a essa questão.

Relacionada à dificuldade de entendimento do aspecto científico real do Espiritismo está a profunda falta de informação existente nos meios espíritas (o que é, no nosso entender, bastante natural) e, por que não dizer, acadêmicos (o que já não parece tão natural assim), em torno do conceito de Ciência. Mais uma vez, um apelo à Epistemologia se faz necessário (ver Chibeni, 1988 e 1994; Chalmers, 1976). As implicações dessa ignorância são as eternas e mal fundamentadas críticas ao Espiritismo feitas por diversas escolas parapsicológicas e demais adeptos das denominadas "ciências psi" (Chibeni, 1988). Esses rejeitam, explicitamente, a idéia do Espírito como causa envolvida em grande parte, se não em todos, dos posteriormente denominados "fenômenos paranormais". Assim agindo, queremos deixar claro ao leitor, tais escolas são levadas por uma idéia ultrapassada de Ciência, bem como por concepções obsoletas do método científico.

Um exemplo um tanto exagerado das confusões com relação às questões expostas anteriormente pode ser encontrado no artigo "Matéria e Antimatéria" (O Reformador, abril/1994). O autor inicia dizendo que "a ciência terrestre chama de matéria tudo o que tem energia e massa, é sólido (...) ou fluídico (...) e ocupa lugar no espaço e no tempo". Essa afirmação, de caráter geral, confere à matéria determinadas propriedades como, por exemplo, massa, mas não pode ser usada para caracterizar certos tipos de matéria no universo. O ponto crítico está onde é afirmado:

    "É de antimatéria o plano vital em que se movem os Espíritos desencarnados."

E, mais abaixo:

    "É pela diferença de sinalização de carga elétrica dos elementos que formam o 'plano invisível' que, em condições normais, não o percebemos fisicamente."

Em nenhum lugar dentro da bibliografia espírita, escrita por autores abalizados e de peso, podem ser encontradas ou sequer deduzidas tais afirmações. Muito ao contrário, das obras de Kardec tem-se claramente que o mundo espiritual constitui um universo paralelo, totalmente independente do material, tanto que, ainda que o mundo material perecesse, o espiritual continuaria existindo. Isso porque matéria e espírito são dois princípios independentes no universo com uma origem desconhecida. As questões 25, 26, 27, 84, 85 e 86 de "O Livro dos Espíritos", são suficientes para esclarecer quaisquer dúvidas. Vejamos, por exemplo, a questão 86:

    "O mundo corporal poderia deixar de existir, ou nunca ter existido, sem que isso alterasse a essência do mundo espírita?

    -- Decerto. Eles são independentes; contudo, é incessante a correlação entre ambos, porquanto um sobre o outro incessantemente reagem."

Por outro lado, o que a Física estabelece como certo com respeito à antimatéira torna absurdas as afirmações propostas acima relacionadas ao mundo espiritual. Conforme H. Alvén (1965), que foi ganhador do Prêmio Nobel em 1970, em "Propriedades da Antimatéria":

    "A teoria de Dirac do elétron e a descoberta do pósitron criou a crença de que toda partícula possui sua correspondente antipartícula. Essa crença foi confirmada pela descoberta do antipróton. Todas as outras partículas parecem Ter também antipartículas. Disso se conclui que os "antiátomos" devem existir, e são semelhantes aos átomos ordinários, com núcleos formados de antiprótons e nêutrons envoltos por pósitrons. Tais antiátomos devem Ter as mesmas propriedades dos átomos ordinários. Eles devem formar compostos químicos similares aos compostos químicos ordinários, que emitem linhas espectrais a exatamente os mesmos comprimentos de onde dos átomos ordinários." (Grifo nosso.)

Assim sendo, as propriedades da antimatéria são as mesmas da matéria ordinária, ou, em outros termos, antimatéria é o nome dado a um tipo especial da matéria! Por outro lado, a existência da antimatéria foi confirmada experimentalmente, assim como a impossibilidade de coexistência simultânea de matéria e antimatéria. Essa é, também, a causa da inexistência natural de antimatéria em nosso mundo. Está claro, entretanto, que de nenhum lugar, nem do atual conhecimento da Física, nem da Doutrina Espírita, semelhantes afirmações podem ser inferidas.

Do que foi exposto, é bastante óbvio que as tentativas de inserção do Espiritismo no contexto das modernas teorias científicas, bem como sua justificação diante da academia estabelecida, o que visa um tanto à sua valorização, são totalmente desnecessárias. De fato, elas são desnecessárias porque, tendo como objetivo de estudo algo que não se identifica como sendo a matéria ordinária, o Espiritismo consegue suficiente independência com relação às demais doutrinas científicas que estudam a matéria, para caracterizar-se como um ramo independente de conhecimento. Não só por isso, pelo caráter harmônico com que os princípios espíritas interagem entre si, fruto de sua boa fundamentação, pela maneira com que estão estabelecidos tais princípios e por suas bases experimentais, pode-se considerar a Doutrina Espírita como uma teoria genuinamente científica no sentido epistemológico moderno. Essa doutrina tem como objetivo o estudo do elemento espiritual, e não se confunde de nenhuma maneira com as demais ciências, embora guarde alguma relação com elas. Lembramos, também, que Allan Kardec jamais se atreveu a tentar interpretar os novos conceitos que descobriu de acordo com os conhecimentos científicos de sua época. Se o tivesse feito, não sabemos quais teriam sido as conseqüências, desastrosas com certeza, ao posterior desenvolvimento e expansão da Doutrina Espírita.

Os prejuízos de uma campanha indiscriminada que visa a ressaltar ou inferir precipitadamente semelhante relação podem ser facilmente previstos. Tais prejuízos podem não ser grandes para aqueles que já possuem um conhecimento considerável do corpo doutrinário espírita, mas o que dizer dos iniciante? Quantas confusões totalmente desnecessárias podem ser evitadas nas mente dos principiantes em Espiritismo se certas afirmações simplesmente não forem feitas? Acreditamos não serem poucas.

O verdadeiro trabalho espírita está no aprimoramento do espírito humano em sua bagagem moral, na sublimação dos instintos humanos, vertendo-os em valores divinos, em suma, no progresso moral do mundo. Para isso, sim, o estudo acurado e cauteloso é imprescindível. Também por isso, experimentações científicas detalhadas no campo espírita só podem ser feitas com a expressa colaboração do Plano Espiritual superior que, para isso, exige uma definitiva demonstração desses valores divinos em nós. (Ver "No Mundo Maior", de André Luiz, pág. 31)



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III- A CIÊNCIA CONFIRMA O ESPIRITISMO?

Temos observado na literatura espírita (livros, revistas, jornais) que costantemente surgem afirmações do tipo "a Ciência moderna confirma o Espiritismo", seguida de citações, a nosso ver, muito duvidosas a respeito de questões científicas. Muitas vezes percebemos no autor uma seriedade de propósitos, porém suas citações nem sempre se apóiam bem no que poderíamos chamar de um "conhecimento científico estabelecido". São citadas obras de divulgação científica que nem sempre primam pelo rigor e, o que é pior, são às vezes escritas com uma "segunda intenção". Perguntará então o leitor: "O que há de errado nos textos de divulgação científica? Será que a Ciência moderna não confirma o Espiritismo?" Neste artigo, vamos tecer inicialmente algumas considerações sobre materialismo, espiritualismo, a Ciência e sua divulgação, sobre outros temas decorrentes e, finalmente, tentaremos responder a essas duas questões.



1- MATERIALISMO E ESPIRITUALISMO

Muitos compêndios de Filosofia ensinam que as escolas filosóficas, as visões de mundo, as ideologias, etc., podem se alinhar em dois grandes grupos: o grupo materialista, para os quais tudo é matéria, senso o pensamento uma qualidade da matéria, e o grupo espiritualista ou idealista, para os quais o espírito existe como uma realidade independente da matéria (vide, por exemplo, "(…) Com efeito, o espiritualismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista (…)" (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Ipág. 13). As filosofias, as ideologias, dentro de cada um dos dois grupos, estão longe de concordarem entre si em muitos outros pontos, a não ser neste único aspecto de aceitar ou não a no segundo grupo e, como já bem apontou Deolindo Amorim (O Espiritismo e as doutrinas espiritualistas, 3a ed., Livraria Ghignone Editora, 1979), o fato de uma doutrina ser espiritualista não significa que está de acordo com o Espiritualismo, a não ser na crença do espírito como algo diferente da matéria.

Conforme já tivemos oportunidade de expressar no artigo "O Espiritismo na Academia?" (Revista Internacional de Espiritismo, fevereiro 1994, pp. 20-22, e março 1994, pp. 41-43), dentro do contexto cultural ocidental, no qual estamos inseridos, desde o início do século passado, após a Revolução Francesa, tem havido uma luta ideológica que pode ser rotulada de materialismo x espiritualismo. Não vamos discutir sobre a origem desta luta e como ela está inserida na sociedade, suas conseqüências, etc., o que não caberia aqui.[Nota 1] Mas esta luta tem-se travado nos vários segmentos da sociedade e da cultura; a ponto de não mais se perceber que ela existe, salvo no aspecto religioso, que costuma ser mais gritante. Do lado materialista a ideologia predominante é a que podemos chamar de positivista ou mecanicista, não necessariamente ligada à filosofia positivista, formulada por Auguste Comte, a partir de 1830, mas com muita coisa em comum. A ideologia (ou mentalidade) positivista essencialmente é de índole materialista, anticlerical, pretensamente racionalista, valorizando o "conhecimento objetivo", ou seja, o conhecimento apreendido pelos sentidos. Já do lado espiritualista, o principal representante tem sido a Igreja Católica Romana, seguida das diversas igrejas reformadas. No final do século passado houve uma "grande batalha" entre essas facções, que se traduziu num debate ideológico e em coisas mais "práticas", como disputas por cátedras, pelo controle de instituições culturais e acadêmicas, etc., visando ao controle do "saber oficial". Com a entrada de uma outra facção do lado materialista, o marxismo, depois da Revolução Russa de 1917, a balança pendeu para este lado, porém a guerra ainda não acabou, e estamos nela. Os leitores espíritas poderão ler, com a atenção voltada nesta direção, o extraordinário livro de Camille Flammarion, Deus na Natureza (Rio, Federação Espírita Brasileira), escrito no século passado, onde perceberão o debate deste com os positivistas. A Filosofia, as Ciências, as Artes, e a própria Religião, têm sido usadas como armas nesta luta. No caso das Ciências, têm sido utilizadas teorias científicas para justificar determinadas posições ideológicas. Por exemplo, a teoria de Darwin e Wallace, ou seja, a "Teoria da Seleção Natural", formulada para explicar a evolução biológica das espécies animais e vegetais, foi utilizada para explicar o desenvolvimento das sociedades humanas, sob o nome de "Darwinismo Social", justificando as desigualdades sociais, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, dos fins do século passado.

 

2- A PALAVRA CIÊNCIA E SEUS SIGNIFICADOS

Passemos agora a um outro tópico: os significados da palavra "Ciência". Vários são os sentidos que esta palavra pode ter, obviamente relacionados entre si. "Ciência" significa conhecimento, sendo usada com significado geral ("o fruto da árvore da ciência do bem e do mal") ou restrito ("a ciência de fazer papagaios de papel"). Significa um determinado tipo de conhecimento já consagrado como tal, como a Física, a Química, a Biologia, etc. Significa a atividade através da qual se obtém este conhecimento ("fazer ciência" = realizar uma determinada atividade científica). Significa também o conjunto de pessoas empenhadas na atividade científica: "a comunidade científica". Quando se diz que a "ciência aceita a tese de que há outros mundos também habitados", está se querendo dizer que a comunidade dos cientistas (ou parte dela) aceita esta tese, pois obviamente não há ainda um estudo científico, no sentido convencional do termo, sobre outros mundos habitados.

Nem sempre porém a comunidade científica é homogênea e coesa. os cientistas são pessoas que em suas atividades profissionais buscam objetividade, precisão, rigor lógico, etc., porém for a dessas atividades são pessoas comuns, com todas idiossincrasias, prenoções e preconceitos do vulgo. Kardec já comenta isto na Introdução de O Livro dos Espíritos e em O que é o Espiritismo. Bertrand Russell, conhecido filósofo deste século, menciona em um de seus textos (A perspetiva Científica, trad. J. B. Ramos, Cia. Ed. Nacional. 1956):



Se algum de vossos amigos for um cientista, acostumado a maior precisão quantitativa em suas experiências, e que possua a mais recôndita capacidade de inferir, podereis sujeitá-lo a pequena experiência sem dúvida significativa. Caso escolherdes em palestra como assunto política, teologia, impostos sobre a renda, corretagem, a vaidade das classes trabalhadoras e outros tópicos de natureza semelhante, provocareis sem dúvida uma explosão e ireis escutá-lo expressar opiniões que não forram verificadas, com um dogmatismo que nunca poderia expressar com relação a resultados que fossem fundados em suas pesquisas de laboratório.




3- A DIVULGAÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

O conhecimento científico, ou seja, o conhecimento resultante da atividade científica, é divulgado de várias maneiras, ou, como chamaremos, níveis.[Nota 2] Vamos considerar apenas a divulgação que gera publicações (revistas, livros, etc.) ou eventualmente filmes, vídeos, etc. Então podemos ter os seguintes níveis:

1o nível – É a divulgação que um ou vários pesquisadores fazem de seu trabalho, de suas idéias, entre os outros pesquisadores da mesma área. É feita normalmente no jargão próprio e seu entendimento requer um treino adequado naquela área de conhecimento. São utilizadas revistas especializadas, livros, etc., que têm uma característica toda própria: o autor e o leitor são pessoas da mesma profissão e, grosso modo, do mesmo nível de conhecimento, ou seja, ambos são membros da mesma comunidade na qual a publicação circula.

2o nível – O conhecimento é divulgada principalmente entre os estudantes de uma dada disciplina. O conhecimento é preparado de forma a iniciar os estudantes naquele campo do conhecimento. São geralmente escritos por pessoas com treino naquele campo (cientistas, professores), e utilizam o jargão próprio, porém de uma forma "amenizada". São os materiais didáticos na forma de livros, revistas, filmes, etc. Evidentemente o autor e o leitor são pessoas de profissão e nível de formação diferentes, pois o estudante está se iniciando naquela comunidade, porém ainda não é um membro.

3o nível – Divulgação para os "leigos". O conhecimento é também preparado para ser transmitido aos não especialistas, porém sem a preocupação de formar o futuro especialista, senso às vezes, feito até em forma de lazer. Podem ser escritos por cientistas, professores ou divulgadores. Estes últimos nem sempre têm um treino naquela área de conhecimento; são profissionais da escrita (escritores, jornalistas, e outros) que estão mais preocupados na "digestibilidade" do conhecimento pelo "leigo".

No 2o e 3o níveis têm papéis importantes na preparação do conhecimento. Estes mesmos pontos de vista que externamos poderá o leitor também os encontrar na interessante matéria veiculada na revista Veja, de 21 de dezembro de 1994, pág. 138, da autoria de Neuza Sanches, referente aos textos de História do Brasil para estudantes secundários. Muitas vezes, nesta preparação do conhecimento, verdades são transformadas em meias-verdades, involuntária ou voluntariamente … e é neste buraco que muitas vezes caímos.[Nota 3]

 


4- MATÉRIA E ENERGIA

Para ilustrar o que dissemos no item anterior, vejamos um caso freqüentemente mencionado em textos espíritas, e em muitos outros, que "a matéria é energia condensada … de acordo … com Einstein, através de sua equação E=mc2 …".

Nesta afirmação equivocada nunca é encontrada em textos de Física ou Química sérios, seja do 1o, 2o ou 3o níveis. Mas em muitos do 3o nível (e até do 2o), que são, muitas vezes, utilizados como fonte de referência. Por que estas afirmações, no nosso entender, são equivocadas?

Não vamos aqui, for falta de espaço, discorrer sobre o que vem a ser energia, no sentido empregado pela Física.[Nota 4] O ponto importante que queremos frisar é que energia e massa são propriedades da matéria. A célebre equação de Einstein, E=mc2, diz que a energia total de um sistema é calculada através do produto da massa pelo quadrado da velocidade da luz, ou seja, como a maioria das equações físicas, relaciona duas propriedades da matéria: a massa e a energia. Esta equação, e outras no âmbito da teoria da relatividade, vai unificar os princípios de conservação de massa e de energia, que passam agora a ser um só: "princípio de conservação da massa e energia".

Por que então surgiu esta afirmação "a matéria é energia condensada"?

Como falamos acima, no item 1, os grupos empenhados na luta ideológica que mencionamos procuram buscar apoio na Ciência. E no caso interpretou-se um resultado científico à luz de uma determinada ideologia, no caso espiritualista, interessada em negar, se possível, a existência da matéria, ou pelo menos em diminuir sua importância dentro da visão de mundo dessa ideologia. À medida que isto é feito (negar a matéria), este conjunto de idéias se torna "mais verdadeiro". Esta interpretação interessou (e interessa) a muitos grupos espiritualistas, que desta forma tentam mostrar a primazia do espírito sobre a matéria, sem usar de outros fenômenos ou argumentos como a mediunidade e a reencarnação. A Doutrina Espírita não necessita deste tipo de "argumento" para afirmar a existência do espírito e sua primazia sobre a matéria, pelo fato de o espírito ser o princípio inteligente. Isto é um ponto básico da Doutrina e suas conseqüências são verificadas na prática. Não é pelo fato de o Espiritismo ser espiritualista que necessita negar a existência da matéria. Recordemos a Questão 27 de O Livro dos Espíritos (43a edição, FEB):

P : "Há então dois elementos gerais do Universo: a matéria e o Espírito?"

R : "Sim e acima de tudo Deus, o criados, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e matéria, constituem o princípio de tudo o que existe (…)."

 

Emmanuel, este Espírito que nos tem dado tantos ensinamentos e orientações, disse alhures que "matéria é luz congelada". Estaria Emmanuel, segundo o que dissemos acima, errado? Não. Em primeiro lugar a frase tem um certo sentido metafórico, porém, mesmo considerando-a ao pé da letra, ela não está errada, pois a luz é matéria. A luz, como outras formas de radiações, é um determinado tipo de matéria, e como tal apresenta diversas propriedades desta, como a massa e a energia. Muitas vezes se utilizam, no meio espírita, expressões como: "o passe é uma transferência de energia". Tal expressão não é incorreta, pois a energia está associada aos fluidos transferidos, o que fica subtendido.[Nota 5] Esta, como grande parte das expressões coloquiais que utilizamos, carece de precisão, porém se fôssemos ser sempre precisos em nossa linguagem usual, acabaríamos doidos ou mudos.

 


5- A CIÊNCIA É MATERIALISTA?

Retomemos os significados da palavra Ciência, que vimos acima. Costuma-se mencionar que "a Ciência é materialista". Mas qual "Ciência"? Dos significados vistos podemos considerar dois: um primeiro, significando conhecimentos específicos (Física, Química, etc.), e um segundo significando a comunidade científica.

O primeiro significado nos faz pensar também nos significados do termo "materialista". As Ciências da matéria (Física, Química, Biologia, etc.) são "materialistas" porque evidentemente estudam a matéria e somente a matéria, pois foram feitas para isso. Querer que elas sirvam para outra finalidade, ou seja, estudar aspectos não materiais da Natureza, é propor, a nosso ver, uma temerosa aventura. Essas tentativas, algumas registradas na história, outras não, sempre redundaram em fracasso. Por outro lado o termo materialista, no sentido filosófico (como visto no item 1), não faz muito sentido ao ser aplicado às ciências da matéria.

Tomando agora o segundo significado do termo ciência – a comunidade dos cientistas – a pergunta - título deste item: "A Ciência é materialista?", é bem apropriada. Como também já mencionamos, o cientista é cientista apenas enquanto exerce sua profissão; for a dela é um cidadão comum, com todas as idiossincrasias comuns. De fato, a maioria da comunidade científica, em âmbito mundial, é materialista no sentido filosófico do termo, assim como também o é a maioria dos membros das sociedades aos quais pertencem os grandes contingentes científicos da atualidade (e isto gostaríamos de frisar). E aqui vale lembrar a advertência de Emmanuel, ou seja, da necessidade de os cientistas se evangelizarem.

Em resumo, a Ciência, pelo fato de estudar a matéria não deve ser por isso considerada materialista, porém a comunidade científica é, em sua maioria, materialista.[Nota 6]

 


6- A CIÊNCIA CONFIRMA O ESPIRITISMO?

Voltemos então às perguntas iniciais: "O que há de errado nos textos de divulgação científica? Será que a ciência moderna não confirma o Espiritismo?" Cremos que o que foi dito acima já responde, em parte, a estas perguntas, principalmente à primeira.

Os textos de divulgação científica, independentemente da qualidade individual de cada um, o que não vem agora ao caso, costumam trazer em seu bojo alguma coisa a mais que os resultados das investigações científicas. Tudo bem, cada um tem o sagrado direito de se expressar. No entanto cada um tem também o sagrado direito de aceitar ou não. Este sagrado direito nem sempre é exercido e aceitam-se certas afirmações cegamente. Kardec nos ensinou o que fazer com as mensagens mediúnicas; vamos aplicar estes critérios também nas mensagens dos encarnados. Em resumo, acho que com os textos de divulgação científica não há nada de errado; alguém está "vendendo seu peixe" e outros simplesmente estão "comprando", sem verificar se o mesmo "está bom ou não".

E a Ciência confirma o Espiritismo?

O outro aspecto a considerar é que o Espiritismo é também uma Ciência. O sucesso das ciências em geral significa também o sucesso da ciência espírita. O raciocínio pode parecer simplista, em parte devido à maneira rápida com que estamos tratando, porém as dificuldades de se entender o que vem a Ciência. Com relação a esta questão o leitor poderá compulsar o artigo "O paradigma espírita", do nosso confrade Silvio Seno Chibeni (Reformador, junho 1994, pp. 176-80), bem como as referências aí citadas que, cremos, esclarecerão melhor a questão. A nosso ver, este é um dos caminhos de confirmação do Espiritismo pela Ciência. O Espiritismo é uma ciência que trata de uma ordem diferente de fenômenos que aqueles de que tratam as ciências da matéria, como já afirmou Kardec. A comparação dos resultados destas ciências não faz portanto muito sentido, principalmente tendo em vista que os "últimos resultados científicos", das ciências da matéria, estão entre as coisas mais mutáveis que existem.

Uma outra linha de comparação que se pode fazer entre Ciência (ainda entendida com conhecimento específico) e Espiritismo seira através do desenvolvimento dos estudos psicológicos ou dos estudos do ser humano em geral. A Psicologia atual está longe de ser considerada uma ciência madura (ou mesmo Ciência, no pensar de alguns), no entanto muitos estudiosos, quase sempre for a do contexto do que poderíamos chamar de "Psicologia Oficial", têm dado contribuições interessante. Os trabalhos de Ian Stevenson (Vinte casos sugestivos de reencarnação, Difusora Cultural, São Paulo, 1978 e Vida antes da vida, Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1988) e outros, trouxeram resultados notáveis. O leitor interessado nesta área poderá consultar o livro Alquimia da Mente, do conhecido escritor espírita Hermínio C. de Miranda (Publicações Lachâtre, Niterói, RJ, 1994), onde muitos outros estudiosos não-espíritas têm apresentado contribuições interessantes. Essa área de estudo, ou seja, o estudo da mente, é uma área comum ao Espiritismo. É possível que num futuro não muito longínquo, os estudos nesta direção chegarão aos mesmos resultados já afirmados pelo Espiritismo, porém, de todo o vasto leque de tentativas de se estudar a mente humana sem considerar a existência do Espírito, a maior parte tem esbarrado em resultados ou em dificuldades onde se faz necessário considerar esta hipótese, sem a qual se entra num beco sem saída. Talvez pudéssemos atrevidamente "profetizar" que quando a psicologia adotasse o paradigma espírita, estaríamos realmente no "início dos novos tempos".

Há ainda um outro ponto a observar, ligado às ciências da matéria. Muitos estudiosos têm-se envolvido numa determinada linha de pesquisa, que remonta à época das mesas girantes, e que tem por objetivo provar a existência do Espírito através de métodos físicos. Apesar de não estar só, em minha obscura opinião, esta linha não chegou e nem chegará a nada, pois os métodos físicos são adequados para se estudas a matéria (foram feitos para isto). Caso alguém evidencie a presença do Espírito através de um método físico, cabe sempre um questionamento metodológico, e daí não se chega a parte alguma. Por outro lado, muitos confrades poderiam ainda argumentar com o fato de Kardec, em suas obras, mencionar várias vezes que o Espiritismo e a Ciência marchariam lado a lado. Estas afirmações poderiam causar (e causam) em muitos leitores a impressão de que Kardec falava das ciências da matéria. Creio que Kardec tinha em mente a Ciência Espírita, que ele acreditavam com toda a certeza, que ainda estava no começo e que iria crescer, porém é melhor passar a palavra ao próprio Mestre Lionês (O que é o Espiritismo, Cap. I, Segundo Diálogo – O Céptico, Oposição da Ciência, págs. 77 e 78, 36a ed., FEB):

As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que se pode, à vontade, manipular; os fenômenos que ela produz têm por agentes forças materiais.

Os do Espiritismo têm, como agentes, inteligências que têm independência, livre-arbítrio e não estão sujeitas aos nossos caprichos; por isso eles escapam aos nossos processos de laboratório e aos nossos cálculos, e, desde então ficam fora dos domínios da ciência propriamente dita.

A Ciência enganou-se quando quis experimentar os Espíritos, como experimenta uma pilha voltaica; foi malsucedida como devia sê-lo, porque agiu visando uma analogia que não existe; e depois, sem ir mais longe, concluiu pela negação, juízo temerário que o tempo se encarregou de ir emendando diariamente, como já tem emendado outros; e, àqueles que o preferiram, restará a vergonha do erro de se haverem levianamente pronunciado contra o poder infinito do Criador.

As corporações sábias não podem nem jamais poderão pronunciar-se nesta questão; ela está tão for a dos limites de seu domínio como a de decretar se Deus existe ou não; é pois, um erro fazê-las juiz dela.

Cremos também ter respondido, ainda que de maneira incompleta, à pergunta título desde artigo. O que nos moveu a percorrer este caminho foi justamente a preocupação com as afirmações que colocamos no início. Se não fosse isto, seguiríamos o caminho adotado pelo confrade Luiz Signates, expresso no excelente artigo "Ciência versus Religião: o debate vazio" (Reformador, abril de 1994, pág., 118), com o qual concordamos plenamente e que, de um certo modo, converge aos pontos de vista que externamos também no artigo já mencionado "O Espiritismo na Academia?"

As críticas que aqui fizemos são genéricas e não são de modo nenhum, pessoais. Gostaríamos que outros pontos de vista fossem também colocados.




N O T A S

1. É bem conhecido o caso de um candidato a um importante cargo público em nosso país que foi derrotado "na boca da urna" por se dizer ser ateu. Em muitos países, inclusive o nosso, muitos candidatos fazem suas campanhas políticas de Bíblia na mão. [volta]

2. Não vamos considerar a comunicação oral, que também satisfaz aos critérios que vamos apresentar, mas seu lado informal confunde-se com o lado formal, do qual estamos tratando.[volta]

3. Ouvi certa vez a expressão "duas meias-verdades não fazem uma verdade inteira". [volta]

4. A palavra energia tem também outros significados, o que pode provocar confusões. Vide Xavier Jr. A. L., "Algumas considerações oportunas sobre a relação Espiritismo-Ciência", Reformador de agosto de 1995, pp. 244-46.[volta]

5. Estaria Emmanuel utilizando um sentido diferente para a palavra energia? Se ele usou, já não temos o que comentar, pois o sentido da frase é agora praticamente literal. Vide a nota 4. [volta]

6. Não vamos estender mais sobre esta questão do materialismo na Ciência. O leitor interessado poderá consultar o livro A Ciência em Ação, de Claude Chrétien, trad. M. L. Pereira, Papirus Editora, 1994. [volta]


Aécio Pereira Chagas, em "O Reformador", edição de julho/1995, págs. 208-211.


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IV- A FÍSICA MODERNA A CAMINHO DA GRANDE REVELAÇÃO

A partir da formulação da "Teoria dos Quanta" por Max Planck, em 1900, e da "Teoria da Relatividade", por Albert Einstein, em 1905, a Física vem sofrendo profundas transformações, cujo resultado inicial foi a desentronização do pensamento mecanicista positivista e a introdução de novas concepções que, em muitos aspectos, tocam as fronteiras da Metafísica.

O ano de 1979 foi marcado pela celebração do centenário de Einstein. Em 29 de maio daquele mesmo ano, havia decorrido 60 anos desde a memorável data em que o grande sábio viu confirmada experimentalmente uma das previsões de susa "Teoria Geral da Relatividade": a deflexão da luz nas proximidades do campo gravitacional.

Einstein postulou que a gravitação resulta do encurtamento do continuum espaço-tempo, provocado pela presença de matéria em uma determinada região.

Modernamente, denomina-se "Geometrodinâmica do Espaço" o corpo de conhecimentos acerca da gravitação, desenvolvida nos moldes da Teoria de Einstein.

Os físicos dessa novíssima geraçãoprocuram também descrever os componentes últimos da matéria em termos de microcurvatura do espaço-tempo: é a "Geometrodinâmica Quântica". A realidade fundamental, conforme esse modelo, está assim figurada: "O Espaço da 'Geometrodinâmica Quântica' pode ser comparado a um tapete de espuma espalhada sobre uma planície ligeiramente ondulda... As contínuas mudanças microscópicas no tapete de espuma, à medida que novas bolhas aparecem e as velhas desaparecem, simbolizam as flutuações quânticas na geometria". As bolhas de espuma a que o exemplo se refere são formadas por "miniblackholes" e "miniwhiteholes", cada qual podendo ser portador de massa positiva ou massa negativa. Esses "miniholes" surgem e desaparecem na geometria do continuum espaço-tempo. São formados por luz autocapturada gravitacionalmente.

Para a nova Física, o espaço-tempo tetradimensional ainda não é uma realidade última fundamental: "o fundamental é o superespaço".

A idéia do superespaço formulada por Wheeler admite que além da nossa realidade limitada, descritível em termos de espaço e tempo, há um superespaço infinidimensional e atemporal. O que poderia vir a ser o ambiente do mundo espiritual.

Partindo dessas avançadas concepções da "Geometrodinâmica Quântica", os físicos estão procurando introduzir a consciência na visão cósmica proporcionada pelo modelo que criaram. Sua tendência é voltar-se para as filosofias orientais e exumar, dentre seus arcaicos ensinos, aquelas mesmas conclusões finais às quais chegaram pelas mais arrojadas teorias da nova Física.

Será que existem outras vias de acesso ao conhecimento além dos métodos da ciência natural? Há evidências de que a nossa mente, em certas circunstâncias, consegue desprender-se das amarras do corpo físico e sair por aí em um corpo não-físico, mas tão real quanto ele. Nesse novo estado, a consciência individual poderia fundir-se com a consciência cósmica e apreender diretamente certas verdades, certos conhecimentos que podem também ser adquiridos normalmente, mas apenas depois daqueles laboriosos processos experimentais e racionais usados pela ciência. A nova Física está chegando a essa espantosa conclusão.

O Dr. Fritjof Capra - pesquisador em física teórica das altas energias, no Laboratório Lawrence de Berkeley, e autor do livro "The Tao of Physics" - admite que "a exploração do mundo atômico e subatômico no século XX resolveu uma insuspeitada limitação das idéias clássicas". Esse fato conduziu a Física a uma revisão de seus vários conceitos básicos. As tradicionais definições de matéria, espaço, tempo e causalidade da antiga visão mecanicista sofreram radical modificação. "Além dessas mudanças", argumenta Capra, "uma nova visão do mundo começa a emergir; uma visão que está estreitamente relacionada às concepções sustentadas pelo misticismo oriental. Os conceitos da Física moderna mostram, muitas vezes, impressionntes paralelos com as idéias expressas nas filosofias religiosas do hinduísmo, budismo e taoísmo. A Física moderna pode, portanto, conduzir-nos ao longo de dois diferentes caminhos: à bomba ou a Buda."

Estendendo-se em profundas reflexões a respeito do paralelismo entre as últimas concepções da Física e das filosofias orientais, Fritjof Capra indica como um dos melhores modelos da realidade aquele que é chamado de "bootstrap" pelos físicos. "A base do modelo 'bootstrap'", diz Capra, "é a idéia de que a natureza não pode ser reduzida a entidades fundamentais, como os blocos fundamentais constituintes da matéria, mas deve ser inteiramente compreendida através de uma autoconsciência." Em outras palavras, a existência de cada objeto, seja um átomo ou uma subpartícula, está na estrita dependência de todos os demais objetos do universo. Qualquer um deles jamais poderia ter realidade própria e independente se todos os demaisineistissem... Esse modelo resulta do fato de que os físicos, tanto quanto os meditadores do Oriente, chegaram à conclusão de que a matéria, em sua constituição básica, nada mais é do que movimento relativo, criador de formas puras apenas. Por isso, consideram que a aparente substancialidade da matéria é uma ilusão - Maya, como dizem os budistas.

Ou então, como aponta Erwin Schrodinger, "... quando chegamos às partículas elementares que constituem a matéria, parece que não há lugar para concebê-las como formadas por qualquer matéria. É como se fossem forma pura e nada mais que forma; aquilo que se repete uma ou outra vez nas observações sucessivas é essa forma, e não uma porção individual de matéria".

Outro conceito moderno que invadiu o pensamento da Física atual é o da unidade de todas as manifestações da noss realidade cósmica. Como diz Curtis Gowan: "A ciência materialista positivista do século XIX, que via as coisas como 'independentes e separadas', foi sendo modificada em virtude das descobertas dos próprios cientistas em direção à totalidade, ao místico e ao cósmico." É importante ressaltar que o desenvolvimento dessa teoria pode vir a "oficializar" o postulado espírita a respeito do éter cósmico, formador intrínseco de toda a matéria e energia contidas no universo. Assim como não tardará o dia em que a Física virá comprovar toda a teoria espírita através de experimentos e deduções lógicas. E entõa a ciência e a religião poder-se-ão unir para o bem e o desenvolvimento da humanidade.



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V- NEUROFISIOLOGIA DA MEDIUNIDADE

ÁREAS CEREBRAIS EXERCEM PAPEL PREPONDERANTE NAS EXPRESSÕES MEDIÚNICAS, MAS A PARTICIPAÇÃO É MERAMENTE INSTRUMENTAL, REVELANDO A SABEDORIA DE SUA CONCEPÇÃO

O desenvolvimento da neuropsicologia apoiada por recursos propedêuticos sofisticados como a tomografia computadorizada, a ressonância magnética e a tomografia por emissão de pósitrons tem permitido uma compreensão cada vez maior dos mecanismos envolvidos na fisiologia do cérebro.

Com base nesses achados, têm surgido novas interpretações para os quadros mentais das demências, das psicoses e até dos distúrbios de comportamento.

Atualmente, admite-se que a atividade mental é resultante, em termos neurológicos, de um "concerto" de um grupo de áreas cerebrais que interagem mutuamente, constituindo um sistema funcional complexo.

Com o conhecimento espírita, aprendemos, porém, que os processos mentais são expressões da atividade espiritual com repercussão na estrutura física cerebral. A participação do cérebro é meramente instrumental.

Sabemos também que a ação do espírito sobre o cérebro, ao integrar elementos de classes diferentes (mente e matéria), implica a existência de um terceiro elemento, transdutor desse processo, que transmite e transfere as "idéias-formas" geradas pelo espírito em fluxo de pensamento expresso pelo cérebro.

Esse elemento intermediário, que imprime ao corpo físico as diretrizes definidas pelo espírito, constitui nosso corpo espiritual ou perispírito.

Após a morte, o espírito permanece com seu corpo espiritual, o qual permite sua integração no ambiente espiritual onde vive. É por esse corpo semimaterial, de que dispõem também os espíritos desencarnados, que se tornam possíveis as chamadas comunicações mediúnicas.

Para Allan Kardec, em "O Livro dos Médiuns", em diversas citações, os espíritos o esclarecem mais de uma vez que todos os fenômenos mediúnicos de efeito inteligente se processam através do cérebro do médium.

No estágio atual do conhecimento que nos fornece a neurologia, seria oportuno indagarmos se é possível uma maior compreensão do fenômeno mediúnico e se identificar no cérebro as áreas e as funções que estariam envolvidas nesses processos.

Os espíritos desencarnados devem de alguma maneira co-participarem com as funções cerebrais dos médiuns seguindo regras compatíveis com os recursos da fisiologia cerebral.

Podemos correlacionar, pelo menos hipoteticamente, quais as funções cerebrais já conhecidas que podem se prestar para a exteriorização da comunicação mediúnica.

Analisando algumas áreas cerebrais, podemos teorizar sobre as possíveis participações de cada uma delas, na expressão da mediunidade.


CÓRTEX CEREBRAL

No córtex cerebral, se origina a atividade motora, voluntária e consciente. Nele, são decodificadas todas as percepções sensitivas que chegam ao cérebro, e são organizadas todas as funções cognitivas complexas.

A atividade cerebral, para se expressar conscientemente, estabelece uma interação entre o córtex cerebral, o tálamo e a substância reticular do tronco cerebral e do diencéfalo , onde se situa o centro da nossa consciência. Uma lesão nessa área provoca o estado de coma.

A partir da substância reticular, se projetam estímulos neuronais que ativam ou inibem a atividade cerebral cortical como um todo, levando a um maior ou menor estado de atenção, alerta ou sonolência.

Pelo exposto, podemos compreender que fenômenos como a psicografia, a vidência, a audiência e a fala mediúnica, devem implicar uma participação do córtex do médium, já que aqui se situam áreas para a escrita, visão, audição e a fala.

Se o espírito comunicante e o médium não disciplinarem seu intercâmbio para promoverem um bloqueio no "sistema reticular ativador ascendente" ao qual nos referimos atrás, as mensagens serão sempre conscientes, e o médium, além de acrescentar sua participação intelectual na comunicação, poderá pôr em dúvida a autenticidade da participação espiritual do fenômeno.

Por outro lado, nenhuma mensagem poderá ser totalmente inconsciente, visto que em todas há a participação do córtex do médium e, se por acaso este não se recordar dos eventos que se sucederam durante a comunicação, o esquecimento deve ser atribuído à ocorrência de uma simples amnésia.

Considera-se, portanto, que o processo mediúnico transcorre sempre em parceria, com assimilação das idéias do espírito comunicante e a participação cognitiva do médium, sendo comum uma amnésia que ocorre logo após a rotura da ligação fluídica (interação de campos de força) entre o médium e a entidade espiritual.

É do conhecimento dos pesquisadores do fenômeno mediúnico que a clarividência, a telepatia e a capacidade de desenhar objetos fora do alcance da visão do médium, ocorrem com características muito semelhantes à organização de noção geométrica e espacial que ultimamente tem-se identificado na fisiologia normal do hemisfério cerebral direito.

Quando ocorrem lesões no hemisfério cerebral direito, as falhas nos desenhos são muito características. Os objetos são esquematizados com negligência de detalhes, ficando as figuras incompletas. Os óculos, por exemplo, são desenhados sem uma das hastes, e uma casa pode ser rabiscada sem um dos seus lados ou sem o telhado.

Os médiuns que captam as informações à distância, ou registram visões imateriais, também costumam descrever suas percepções com falta de detalhes ou amputação das imagens, de maneira muito semelhante à negligência observada nas síndromes do hemisfério direito.

É possível que esses médiuns registrem as imagens utilizando as áreas corticais específicas para funções visuais e gnósticas (de reconhecimento) do hemisfério direito do cérebro. O grau de distorção ou de falta de detalhes mais precisos deve depender do maior ou menor grau de desenvolvimento mediúnico.


GÂNGLIOS DE BASE

As estruturas nucleares constituídas por aglomerados de neurônios situados na profundidade da substância branca cerebral, são denominadas de gânglios ou núcleos de base. Estes são responsáveis por uma série de funções motoras automáticas e involuntárias, fazendo parte do chamado sistema extrapiramidal.

Os gânglios da base controlam o tônus muscular, a postura corporal e uma série enorme de movimentos gestuais que completam nossa movimentação voluntária.

Logo após o nascimento, a gesticulação de uma criança é visivelmente reflexa e automatizada. Progressivamente vão surgindo os movimentos intencionais (voluntários), projetados a partir do córtex piramidal (área motora principal). No processo de aprendizado, a criança vai repetindo gestos para pegar os objetos, para se levantar, para engatinhar e andar, até que, progressivamente, esses movimentos vão se sucedendo com maior facilidade, passando a realizarem-se automaticamente.

A mímica, a mastigação, a marcha, são automatismos aprendidos no decorrer do desenvolvimento da criança.

Posteriormente, uma série de automatismos mais complexos vão se desenvolvendo, como é o caso de, por exemplo, aprendermos a dirigir o automóvel, a tocar piano ou nadar.

Depois de uma certa idade, é possível de se ver facilmente que qualquer movimento voluntário que realizamos conscientemente é enriquecido com uma constelação de gestos automáticos e involuntários, que dão um colorido característico, individual e identificador do nosso modo de ser.

Esses nossos pequenos gestos estão freqüentemente muito bem fixados na imagem que nossos amigos fazem de nós. Por isso, podemos dizer que eles também servem para nos identificar.

Convém ficar claro essa noção de que nossos movimentos podem ser voluntários ou automáticos. No primeiro caso, quando são conscientes e intencionais, como, por exemplo, quando estendemos a mão para pegar um lápis. No segundo caso, o movimento é semiconsciente, automático, muito menos cansativo que o primeiro.

Os movimentos automáticos podem ser simples, como mastigar e deglutir, ou mais complexos, como, por exemplo, para dirigir um automóvel, nadar ou tocar um instrumento musical.

A execução de um ato automático mobiliza os gânglios da base e as áreas motoras complementares do lobo frontal. Mesmo os mais complexos, como, por exemplo, tocar uma partitura bem decorada ao piano, nos permite que fiquem livres outras funções do cérebro, particularmente nossa consciência e todas as demais capacidades cognitivas do cérebro. Assim, mesmo tocando ao piano ou dirigindo um automóvel, podemos manter livremente uma conversação.

Considerando o fenômeno mediúnico da psicografia e da fala mediúnica, podemos observar corriqueiramente que os médiuns, ao discursarem ou psicografarem um texto sob a influência do espírito comunicante, o fazem revelando gestos, posturas e expressões mais ou menos comuns a todos eles.

No caso da psicografia, a escrita se processa freqüentemente com muita rapidez, as palavras podem aparecer escritas com pouoca clareza, as letras às vezes são grandes, provavelmente para facilitar a escrita rápida, a caligrafia tem pouco capricho, não há necessidade do médium acompanhar o que escreve e pode ocorrer escrita em espelho.

Na comunicação oral, o médium se expressa com vozes de características variadas, o sotaque pode ser pausado, como feito com esforço, mas, em médiuns mais preparados, a fala costuma ser fluente e muito rápida, parecendo se tratar de um discurso previamente preparado ou muito bem decorado. Nota-se também que, durante a comunicação, o médium assume posturas e gestos incomuns ao seu modo de se expressar.

Quando interrogamos os médiuns conscientes, estes dizem que no decorrer do fenômeno eles como que são levados a falar ou a escrever como se isso não dependesse da contade própria.

Correlacionando agora o que vimos em termos neurológicos para a fisiologia do sistema extrapiramidal (gânglios da base e área cortical pré-motora) com as características da comunicação mediúnica, temos a impressão de que a entidade comunicante se utiliza desse sistema automático para se manifestar com maior rapidez, com o mínimo de dispêndio de energia, com menor interferência da consciência do médium e com maior possibilidade de se suceder uma amnésia.

Resumidamente, poderíamos enquadrar esse tipo de comunicação mediúnica como uma constelação de automatismos complexos, desempenhados pelo sistema extrapiramidal do médium, mas com a co-autoria do espírito comunicante.

Já vimos também que, durante nossos atos automáticos, nossa consciência está livre para a execução de atos voluntários e intencionais, podendo com eles interromper ou modificar nossos automatismos. Por isso, podemos dizer e concluir que a manifestação mediúnica, em se tratando de gestos automatizados, sofre o controle e a ingerência da consciência do médium -- o que não deixa de ser um fator inibidor, mas necessário para a própria "disciplina" da entidade quando isso se fizer necessário.


TÁLAMO

O tálamo é um núcleo sensitivo por excelência. Ele exerce um papel receptor, centralizador e seletor das informações sensitivas que se dirigem ao cérebro.

Os estímulos externos do tipo dor, tato, temperatura e pressão, percebidos em toda extensão do nosso corpo, percorrem vias neurais que terminam no tálamo (no centro do cérebro). A partir daí, esses estímulos são priorizados e selecionados para que cheguem ao cérebro apenas os estímulos convenientes, principalmente os mais urgentes, como o caso dos estímulos nocivos, que exigem uma rápida retirada. É o caso de retirarmos logo a mão de um objeto que está muito quente.

Por outro lado, mesmo para estímulos de pouca importância, o tálamo pode fornecer para a consciência as informações desejadas, quando elas forem requeridas para o córtex. É o caso de, a qualquer momento, mesmo de olhos fechados, querermos saber se estamos ou não usando uma aliança no dedo ou uma meia calçada nos pés.

Portanto, as informações sensitivas são percebidas no tálamo, e este exerce o papel bloqueador, interrompendo o caminho até o córtex cerebral, que só será alcançado quando a informação for nova ou quando despertar interesse ou risco.

As informações monótonas e corriqueiras ficam provisoriamente interrompidas no tálamo. As informações das roupas, que, por exemplo, tocam a nossa pele, não precisam afetar nossa consciência continuadamente.

É possível que muitas das nossas sensações somáticas referidas pelos médiuns que dizem perceber a aproximação de entidades espirituais, como se estes lhes estivessem tocando o corpo, seja efeito de estímulos talâmicos.

Nesse caso, pela ação do córtex do médium, os estímulos espirituais podem ser facilitados ou inibidos pela aceitação ou pela desatenção do médium, bem como por efeito de estados emocionais não disciplinados pelo médium.


GLÂNDULA PINEAL

A estrutura e as funções da glândula pineal passaram a ser estudadas com maior ênfase após a descoberta da melatonina, por Lener, em 1958.

Embora a pineal já fosse conhecida desde 300 anos D.C. (foi descoberta por Herophilus), só após a descoberta da melatonina se descobriu sua relação com a luminosidade e a escuridão.

Ficou demonstrado experimentalmente que a luz interfere na função da pineal através da retina, atingindo o quiasma ótico, o hipotálamo, o tronco cerebral, a medula espinhal, o gânglio cervical superior, chegando finalmente ao nervo conari, na tenda do cerebelo. Entre a pineal e o restante do cérebro não há uma via nervosa direta. A ação da pineal no cérebro se faz pelas repercussões químicas das substâncias que produz.

Hoje já se identificou um efeito dramático da pineal (por ação da melatonina) na reprodução dos mamíferos, na caracterização dos órgãos sexuais externos e na pigmentação da pele.

Investigações recentes mostram também uma relação direta da melatonina com uma série de doenças neurológicas que provocam epilepsia, insônia, depressão e distúrbios de movimento.

Animais injetados com altas doses de melatonina desenvolvem incoordenação motora, perda da motricidade voluntária, relaxamento muscular, queda das pálpebras, piloereção, vasodilatação das extremidades, redução da temperatura e respiração agônica.

Descobriu-se também que a melatonina interage com os neurônios serotoninérgicos e com os receptores benzodiazepínicos do cérebro, tendo, portanto, um efeito sedativo e anti-convulsivante.

Pacientes portadores de tumores da pineal podem desenvolver epilepsia, por depleção da produção de melatonina.

A melatonina parece ter também um papel importante na gênese de doenças psiquiátricas, como depressão e esquizofrenia.

Outros estudos confirmam uma propriedade analgésica central da melatonina, integrando a pineal à analgesia opiácea endógena.

A literatura espírita há muito vem dando destaque para o papel da pineal como núcleo gerador de irradiação luminosa, servindo como porta de entrada para a recepção mediúnica.

Como a pineal é sensível à luz, não será de estranhar que possa ser mais sensível ainda à vibração eletromagnética. Sabemos que a irradiação espiritual é essencialmente semelhante à onda eletromagnética que conhecemos, compreendendo-se assim sua ação direta sobre a pineal.

Podemos supor que um contato da entidade espiritual com a pineal do médium possibilitaria a liberação de melatonina, predispondo o restante do cérebro ao "domínio" do espírito comunicante. Essa participação química do fenômeno mediúnico poderia nos explicar as flutuações da intensidade e da freqüência com que se observa a mediunidade.

Até o presente, a espécie humana recebe a mediunidade como carga pesada de provas e sacrifícios. Raras vezes como oportunidade bem aproveitada para prestação de serviço e engrandecimento espiritual.

A evolução, no entanto, caminha acumulando experiências, repetindo aprendizados. Aos poucos, iremos acumulando, tanto espiritualmente como fisicamente, modificações no nosso cérebro. O homem do futuro deverá dispor da mediunidade como dispõe hoje da inteligência. Confiemos que a misericórdia de Deus nos conceda a bênção de saber usar bem as duas a partir de hoje.

Prof. Dr. Nubor Orlando Facure, "Revista Internacional de Espiritismo", Agosto/2000, Págs. 301/304.


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VI- A PROPÓSITO DA MATÉRIA "PSI"


1- INTRODUÇÃO

O livro brasileiro mais conhecido escrito sobre o assunto é "Psi-Quântico", de Hernani Guimarães Andrade. O texto trata da aplicação de algumas idéias qualitativas da Mecânica Quântica para o que seria a "matéria psi", ou a matéria de que são constituídas as entidades no plano espiritual. O autor constrói de forma qualitativa uma extensão de alguns conceitos quânticos da Física Atômica à matéria espiritual, sem, contudo, chegar a formular uma teoria completa, a exemplo da existente na Física para a matéria comum. A publicação desse livro foi, sem dúvida, um grande primeiro passo na direção da compreensão da matéria espiritual, fundamental para melhorarmos nosso entendimento da relação entre os níveis material e espiritual, assim como o funcionamento do acoplamento de nossa alma com nosso próprio corpo físico.


2- EMBASAMENTO EXPERIMENTAL

O autor relata detalhadamente uma série de interessantes experimentos realizados no final do século XIX e início do século XX, que dão suporte às hipóteses que formulará sobre a matéria "psi". A seguir, apresentamos um pequeno resumo de dois dos principais experimentos:


a) As experiências de Zöllner em 1877, com nós em tiras de couro e moedas em caixas fechadas, levaram à hipótese de um hiperespaço 4D (de quatro dimensões), onde estaria a matéria "psi". Zöllner postula que o aquecimento observado nos objetos transportados deve-se ao fato de que o transporte de corpos pela quarta dimensão "obriga-os a atravessar fortes campos de uma determinada natureza".

b) Bozzano (1862-1943) também realizou uma série de experiências de transportes de objetos, dando suporte à idéia do hiperespaço. O espírito mentor nas experiências de Bozzano colocou que, para o transporte de objetos pequenos, os mesmos são desmaterializados, transportados e materializados novamente; já no transporte de objetos grandes, quem sofre a desmaterialização é uma região nas portas e/ou paredes por onde atravessam. Bozzano e os espíritos envolvidos informam que, no transporte de uma planta -- lírio -- vinda de outro lugar do planeta (do Egito para os EUA), esta já estava no recinto pelo menos uma hora antes da materialização. No processo de materialização, a planta foi "crescendo"; e, na desmaterialização, desapareceu "instantaneamente". No espaço "psi", "paralelo ao nosso", o modelo organizador do lírio estava pronto para a reestruturação do mesmo. Após o relato e discussão das várias experiências, é apresentada então a hipótese básica: nossa realidade 3D (de três dimensões) é um universo paralelo ou subespaço de uma realidade 4D (de quatro dimensões) da matéria "psi". Somos seres 4D temporariamente acoplados a uma realidade 3D. Embora Martiny seja citado no livro como postulando um espaço 5D para a matéria "psi" (numa referência de 1955), o autor mantém a hipótese 4D.

Considerando a Teoria da Relatividade de Einstein, sabemos que o mundo físico que conhecemos precisa de uma descrição quadrivetorial, ou seja, a realidade física da matéria comum já é -- pelo menos -- um espaço 4D (3D espaciais e 1D temporal, na Teoria da Relatividade Restrita). Dessa maneira, o correto seria postular para o hiperespaço da matéria "psi" pelo menos uma dimensão a mais, ou seja, caracterizá-lo como espaço 5D. De toda forma, essa questão não invalida os aspectos mais importantes da proposta exposta pelo autor.

Para entender melhor -- e sem equações matemáticas -- as características físicas de dois espaços com uma dimensão de diferença entre eles, por exemplo um mundo 2D e um 3D, vide o romance "A Terra dos Achatados", cujo nome original, em inglês, é "Flatland: A Romance of Many Dimensions", de autoria de Edwin A. Abbott, editado em 1992 pela "Dover Publications", de Nova York.


3- HIPÓTESES BÁSICAS FORMULADAS POR HERNANI


a) "A matéria 'psi' é constituída de ondas e corpúsculos da mesma maneira que a matéria comum".

Comentário: A matéria comum é constituída de blocos elementares que apresentam propriedades de onda e de partícula ao mesmo tempo, sendo descritas por uma função de onda. Apenas nas situações mais usuais do cotidiano é que parecem ter caráter apenas de partícula ou de onda -- dependendo do caso -- e obedecendo às leis da Física Clássica. Já que irá se aplicar os conceitos da Mecânica Quântica ao modelo da matéria "psi", é importante que inclusive o modelo para a matéria comum esteja claro e de acordo com as teorias atuais.


b) "Como a matéria comum tem composição quântica, então a matéria 'psi' também, daí o nome do livro".

Comentário: A matéria comum apresenta algumas propriedades que só puderam ser entendidas (até agora...) através da Mecânica Quântica, como sendo a teoria capaz de descrever as interações na natureza a nível microscópico. Não se pode dizer que a matéria tenha "composição quântica ou clássica".


c) "Como a nossa matéria está organizada num espaço de três dimensões, então a matéria 'psi' está organizada num espaço de quatro dimensões."

Comentário: Como já colocado antes, a Física Moderna, após a Teoria da Relatividade Especial ou Restrita, já vem utilizando um espaço de quatro dimensões para descrever os eventos de nosso plano físico; para poder explicar os fenômenos ditos "paranormais", a matéria "psi" deve, portanto, existir num espaço com um número maior de dimensões, no mínimo cinco, de maneira a explicar, por exemplo, as desmaterializações e materializações à distância.


4- O PSI-ÁTOMO DE HERNANI

É apresentado o modelo atômico de Bohr, numa visão mecanicista clássica, apenas adicionando-se o conceito de quantum -- ou de quantização -- da energia. As partículas prótons, nêutrons e elétrons são tratadas como elementares. Embora esse tipo de exposição do modelo não comprometa o objetivo básico do autor, é importante lembrar que, desde a década de 30, com a descoberta de outras partículas ditas então elementares, e mais recentemente com os quarks, não se pode mais considerar prótons e nêutrons como partículas elementares. Sem dúvida, é muito difícil fazer visualizar o átomo como descrito pela Mecânica Quântica, porém a visão "planetária" do átomo deve ser usada com muito cuidado, por não ser rigorosamente correta. O próprio Max Born falou a respeito da grande dificuldade de se criar imagens de idéias abstratas e da importância dessas imagens na didática, chamando-as de "ajudas visuais parciais".

Hernani postula então o "psi-átomo", em analogia com o átomo da matéria comum. O átomo "psi" seria formado por um núcleo constituído de inteléctons ("carga" positiva) e percéptons ("carga" neutra), e de bíons ("carga" negativa), girando ao seu redor.

É colocado que o bíon e o elétron geram o Campo Biomagnético, através do qual a matéria comum e a matéria espiritual interagem. O intelécton seria o quantum de consciência-inteligência; e o percépton, o quantum de percepção-memória.

Apresenta também, para a quantização da energia da matéria "psi", uma equação análoga à que usamos na matéria comum:

q = f . h, onde "q" é o "quantum" de energia dos bíons; "f" é a sua frequência; e "h" é a constante de Planck (6,625x10-27 erg.s).

A constante de Planck teria o mesmo valor no espaço comum e no hiperespaço? Isto não é cogitado pelo autor e tem conseqüências importantes para o modelo, pois a organização dos níveis de energia na estrutura da matéria "psi" (conseqüentemente os níveis de vibração e valores das quantidades de energia emitidas ou absorvidas) certamente muda quando muda o valor dessa constante. Várias observações de experimentadores espíritas apontam na direção de que no hiperespaço esta constante teria outro valor.

Hernani lembra que sua descrição tem suporte na colocação de André Luiz, segundo a qual a matéria comum é plasmada pela matéria mental -- matéria "psi" --, a qual tem diferentes padrões vibratórios; seus átomos também são formados por associação de "cargas" positivas e negativas, sendo que as moléculas do perispírito giram em mais alto padrão vibratório, com movimentos mais intensos que as moléculas do corpo carnal.


5- O CAMPO BIOMAGNÉTICO (CBM)

Uma parte muito importante do livro de Hernani é o relato dos vários trabalhos indicando a natureza eletromagnética -- quase eletrostática apenas -- dos Campos Biomagnéticos dos seres vivos. É colocado que o CBM (campo vital, ou campo "psi" e físico, ou biomagnético) é produzido tanto pelos bíons atuando sobre a matéria, como também pelos elétrons atuando sobre a matéria "psi". É afirmado, sem explicações ou justificativas, que o CBM é essencialmente um campo magnético (em contradição com as conclusões dos experimentos relatados sobre a característica quase eletrostática dos mesmos) e que o CBM "segue uma direção normal ao hiperespaço". Na página 135 do livro, é colocado que a matéria "esconde" o campo magnético dos orbitais eletrônicos. A matéria não esconde esses campos -- eles se cancelam na maioria dos casos. O que não se vê é a componente ou o campo do elétron que atua sobre o bíon. O campo que o autor está procurando é outro, ou, mais provavelmente, uma componente a mais, ainda desconhecida, do campo eletromagnético conhecido.


6- DENSIDADE DA MATÉRIA "PSI"

Em seguida, o autor realiza uma discussão sobre a densidade das matérias, normal e "psi". Coloca que a matéria pode polarizar a matéria "psi" através do CBM dos elétrons, mas que o "psi-átomo" projetado em 3D (do nosso mundo) é muito maior que o átomo físico. Ele calcula que o corpo astral -- perispírito -- tem massa de aproximadamente 61,7 gramas, para um volume de 70.000 cm3 (volume de um corpo humano médio no nosso espaço), ou seja, a densidade da matéria "psi" é de aproximadamente 0,00088g/cm3, que é da ordem da densidade do gás Neon. Assim, a densidade da matéria "psi" é 1,45 vezes menor que a do ar e 9,8 vezes maior que a do Hidrogênio. O corpo astral seria então 1.135 vezes mais leve que o corpo físico.

Esse cálculo, no entanto -- se as premissas estiverem corretas --, é da densidade da matéria "psi" enquanto projetada no nosso espaço (o volume projetado foi considerado igual ao do corpo físico) e não a densidade da matéria "psi" no hiperespaço. Entendemos que o valor apresentado para a densidade seja de fato um limite superior para a densidade da matéria espiritual quando projetada no nosso espaço, pois supor que o volume do corpo astral projetado é igual ao do corpo físico contradiz a afirmação de que o átomo "psi" projetado tem volume maior que o átomo normal. A menos que o número de átomos "psi" associados ao corpo espiritual seja menor que o número de átomos do corpo material a ele acoplado.

Considerando as balanças bastante mais precisas que existem atualmente, seria muito interessante que fossem retomados os experimentos de medir a diferença de massa do corpo humano antes e depois do desencarne, para uma determinação, com análise estatística, da massa do corpo astral e de sua densidade, levando em conta o volume real de cada corpo considerado.


7- FORMAÇÃO DOS SERES

Através do CBM, um agrupamento de átomos é capaz de "capturar" um "psi-átomo" e a ele ficar acoplado. Assim, aglomerados moleculares podem polarizar uma estrutura molecular "psi", criando um corpo espiritual rudimentar acoplado, cujo volume projetado em nosso espaço é bem menor que o seu volume no hiperespaço -- o corpo espiritual é "reduzido" ao ser acoplado ao corpo físico. Os corpos espirituais podem aprender (através de seus inteléctons), guardar informações (através de seus percéptons) e sobreviver à destruição dos aglomerados moleculares de matéria comum. Podem plasmar novos aglomerados na matéria comum através do CBM produzido pelos seus bíons. A matéria "psi" e a matéria comum ficam então acopladas através da interação mútua do CBM, e os corpos assim formados têm propriedades físicas e "psi".

A biogênese é analisada e entendida por Hernani da seguinte forma:

- moléculas orgânicas são formadas no "caldo nutritivo" dos oceanos primitivos;

- estes agregados moleculares "capturam e agregam" moléculas "psi" e a elas ficam acoplados formando um organismo primitivo com "corpo físico" e "corpo espiritual";

- as moléculas "psi" "aprendem" e se organizam de forma cada vez mais complexa, plasmando organismos cada vez mais sofisticados no plano físico;

- esta escalada culmina com os seres superiores atuais, formados de corpos físico e espiritual;

- a superação do problema da entropia na biogênese é explicada pelo princípio da força organizadora da matéria "psi" (através do CBM) sobre a matéria comum.

É claro que não se pode pretender que questões delicadas como "quem começou primeiro?" possam ser respondidas por um modelo apenas esboçado e com os poucos conhecimentos de que dispomos. O importante é que tudo faz muito sentido dentro do contexto de uma teoria coerente. Em outro livro de indispensável leitura -- "Espírito, Perispírito e Alma / Ensaio sobre o Modelo Organizador Biológico" --, Hernani desenvolve mais profundamente as idéias da biogênese, tratando do Modelo Organizador Biológico. Naquela obra, ele apresenta um diagrama bastante interessante de como esse acoplamento corpo físico-corpo espiritual explica a nossa complexa estrutura.


8- NA DIREÇÃO DE UMA TEORIA

A transformação do modelo qualitativo apresentado por Hernani em uma teoria completa, com capacidade de previsão de efeitos e cálculo das interações, a exemplo da que existe para a matéria comum, representa um considerável desafio. Façamos uma prospecção, baseados nas teorias atuais da física.

O tratamento para os bíons deveria ser na direção da já estabelecida equação relativística para os elétrons (de Dirac), ampliada para um espaço com -- pelo menos -- mais uma dimensão. Especial atenção deverá ser devotada para desenvolver uma "biondinâmica" -- o equivalente à eletrodinâmica da matéria comum -- e, principalmente, à interação bíon-elétron, chave para se chegar à descrição matemática do CBM, a exemplo do que temos para ondas eletromagnéticas. Certamente ter-se-á que revisitar, agora com ferramental matemático rigoroso e explícito, trabalhos antigos como a "Teoria Eletrodinâmica da Vida" e, bem mais recentes, sobre a "Teoria Holográfica".

Por outro lado, para trabalhar as interações entre as partículas "psi" e formular a estrutura dos átomos "psi", seria necessário propor uma equação de Schroedinger generalizada, com uma dimensão a mais da normal, de maneira a poder-se obter, por exemplo, os níveis de energia dos átomos e moléculas "psi". Além dos números quânticos já conhecidos para o átomo, dois novos -- pelo menos -- deveriam ser adicionados, pois as propriedades dos inteléctons e percéptons deverão ser quantificadas. Seriam elas quantizadas ou não? O formalismo matemático seria o do tipo usado para tratar o número quântico spin ou o "sabor" dos quarks?

Como sabemos que prótons e nêutrons têm estrutura (ou seja, são formados por quarks), certamente seria natural supor que inteléctons e percéptons também tivessem... ou não? Se não tiverem estrutura interna, então a matéria espiritual seria radicalmente diferente, a nível microscópico, da organização da matéria comum, com grandes repercussões a nível de como seria encarado um mundo material mais complexo e elaborado que o espiritual... Se tiverem estrutura interna, seria necessária uma Cromodinâmica Quântica Generalizada para o hiperespaço e os "psi-quarks" seriam realmente os tijolos básicos da matéria espiritual, juntamente com os bíons, os "psi-fótons" (os quanta do CBM) e os "psi-neutrinos"... Sem dúvida, um quadro complexo.

Por outro lado, uma outra hipótese plausível, com base nos fenômenos e comunicações espirituais, é a de um hiperespaço multidimensional, onde o ser espiritual utilizaria cada vez mais dimensões à medida que evolui e se espiritualiza.

Ou ainda, podemos encarar o próprio universo como uma observável quântica e aí teríamos uma infinidade de universos possíveis, paralelos ao nosso, sendo que o ser espiritual poderia transitar entre eles...

Qualquer desses pontos de partida -- existem outros, é claro -- representará um esforço considerável de trabalho de Física e Matemática, mas certamente muito válido, para prosseguir na trilha aberta por Hernani.

Não podemos deixar de comentar que a Mecânica Quântica oferece um extraordinário ferramental, não somente para o entendimento da matéria, mas também da dinâmica da vida, da natureza humana e da consciência, assim como uma base científica para a imortalidade da consciência, como muito bem explorado pela física e filósofa Danah Zohar, em seu livro "O Ser Quântico". A autora chama a atenção para o estudo dos condensados de Bose-Einstein em sistemas biológicos, para explicar a consciência. Embora tenha uma visão equivocada (do ponto de vista espírita) sobre a questão da alma, a discussão por ela apresentada pode ser muito bem aproveitada para uma teoria da interação entre a matéria comum e a matéria espiritual.


9- NA DIREÇÃO DE UMA FENOMENOLOGIA

Além de uma esforço teórico, e também para ajudá-lo e orientá-lo, é absolutamente necessário um suporte de experimentação. Nesse caso, o ponto de partida nos parece muito claro: investigar o CBM. Um estudo mais detalhado e refinado dos campos eletromagnéticos dos seres vivos, da maneira como estes campos são alterados -- por exemplo quando da atuação de uma entidade desencarnada sobre um encarnado --, podem nos levar a, enfim, observar a componente faltante do campo total gerado pelo elétron, que seria exatamente o CBM. Nesse caso, físicos, biólogos e médicos teriam uma grande contribuição a dar, não somente em experimentos originais, mas também na reanálise de dados de experimentos já realizados com outros objetivos, mas que podem já conter resultados importantes que apenas faltam ser correlacionados quando analisados por uma óptica sem preconceitos e mais ampla. Trabalhos relativamente recentes, como os do Energy Research Group, ou o relatado nos capítulos 6 e 7 do livro "Mãos de Luz" (de Bárbara Ann Brennan, Ed. Pensamento, 1996), podem ser um bom ponto de partida para orientar sobre o tipo de arranjo experimental a ser utilizado.


10- COMENTÁRIOS FINAIS

O objetivo básico desse texto foi comentar uma das obras de Hernani, ampliando a discussão de alguns pontos e levantando algumas possibilidades de continuação do trabalho de entendimento da matéria espiritual. Não tivemos a pretensão de esgotar o assunto, nem de sermos taxativos quanto às análises e conjecturas realizadas, mas apenas contribuir para a discussão de tão importante tema.

Entendemos que Hernani, quando discute a matéria "psi", se enquadra mais como um filósofo do que como físico. O que ele faz é mostrar um caminho, como fez o grego Demócrito no caso do átomo. Já em 1962, o físico Taketani discutia a necessidade da real aproximação e colaboração entre físicos e filósofos, para que a complexidade das idéias da Física Moderna não leve a confusões filosóficas, mas, sim, a uma relação sinérgica entre as duas ciências.

Na verdade, a primeira obra de Hernani que trata da matéria "psi" é bastante anterior àquela de que tratamos neste artigo, sendo que suas idéias foram discutidas em um artigo publicado na "Revista Internacional de Espiritismo", edição de Janeiro/1985. Ao mostrar o caminho, ainda bastante nebuloso e complexo, Hernani usou de natural aproximação simplificada, que logo de início não foi bem compreendida e até precipitadamente refutada, como sendo uma teoria anti-doutrinária "a reformar a Doutrina Espírita e a substituí-la". Embora seja até compreensível tal reação por parte do meio espírita, entendemos que não seja esta a proposta decorrente da obra de Hernani. Seja pelas informações sobre o plano e a matéria espiritual, contidas em várias obras psicografadas, e jamais contestadas pelo meio espírita, seja pelos dados riquíssimos que os atuais experimentos de transcomunicação estão cada vez mais apresentando, dificilmente o estudo da matéria "psi" passará ao largo do caminho apontado por Hernani.

Dado o objetivo deste artigo, não foi possível, e nem seria adequado, tocar em outras questões da Física Contemporânea, que, embora possam mais parecer ficção-científica, são, na realidade, rigorosas conseqüências de novas teorias já sedimentadas na literatura científica, que dão suporte e/ou explicam fenômenos espíritas. Tratar desses avanços recentes e complexos da Física em linguagem acessível e sem erros conceituais é um formidável desafio. No entanto, existe disponível, já há algum tempo, um livro que, através de criativos desenhos e linguagem simples e clara, mas com rigoroso embasamento físico, trata da estrutura do espaço-tempo, fenômenos paranormais e a estrutura da energia.

Por fim, dado o grande desequilíbrio do tripé ciência-filosofia-religião ainda existente em grandes porções do movimento espírita brasileiro, sempre é bom lembrar o próprio Codificador:


a) "Não há fé inabalável senão aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade."
Item 7, Capítulo XIX, de "O Evangelho Segundo o Espiritismo"


b) "É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma Ciência de observação e não produto da imaginação."
Item 14, Capítulo I, de "A Gênese"


c) "...ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação."
Item 16, Capítulo I, de "A Gênese"

Carlos Alberto Appoloni, "Núcleo Espírita Universitário de Londrina-PR", Janeiro/1998.




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VII- TEORIA DAS SUPERCORDAS

TEORIA CIENTÍFICA, AINDA EM DESENVOLVIMENTO, CASO COMPROVADA, TRARÁ MAIS EXPLICAÇÕES AOS QUESTIONAMENTOS SOBRE PARTÍCULAS ELEMENTARES

Foi com muita satisfação que li o artigo "O Microcosmo", no qual o confrade Oswaldo Iório atende ao convite feito por mim no artigo "As Cordinhas", para que nós espíritas estabelecêssemos um debate visando a nos tornar mais esclarecidos e atualizados em relação ao progresso científico e sua convergência com os ensinamentos evangélicos. Em um outro artigo, publicado em junho de 2000, eu chamei a atenção para o fato de as pessoas que têm algum tipo de formação tecnológica e que são espíritas terem a oportunidade de, se interessando pela pesquisa a respeito dos fenômenos naturais, poderem obter conclusões em seus trabalhos, somando os ensinamentos e tomando por base os critérios que ambos -- conhecimento científico e conhecimento doutrinário -- lhes podem proporcionar: provas experimentais, lógica, justiça e moralidade. Todas as comparações que possamos fazer entre as mais recentes teorias da Física Moderna e os ensinamentos evangélicos devem ser entendidas como sendo objeto do campo das especulações teóricas, devem a ele ficar restritas e devem servir, acima de tudo, para nos mostrar que esses dois pilares do conhecimento humano seguem na mesma direção e sentido, concordando eventualmente em alguns pontos e, assim sendo, nos levando a crer que, no futuro, farão parte da mesma trilha, rumo à verdade.

No caso específico das "cordinhas", devo esclarecer que, apesar de eu ter usado essa denominação simples e até jocosa, o assunto se refere à Teoria das Supercordas, que atualmente é motivo de grande atenção, tanto por parte dos meios acadêmicos, quanto do público em geral interessado em assuntos científicos, nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. A mim, essa teoria chamou a atenção em um artigo da Revista Superinteressante de julho de 1999, no qual era anunciado um Congresso Internacional -- Strings 99 -- onde compareceriam cerca de 400 físicos e matemáticos, a ser realizado no Instituto Max Planck, em Postdam, Alemanha. Esse naipe de cientistas seria comandado pelo americano Murray Gell-Mann, vencedor do Nobel de 1969 e criador da Teoria dos Quarks.

A Teoria das Supercordas surgiu para tentar esclarecer alguns aspectos do comportamento das partículas elementares, para os quais a Mecânica Quântica e a Teoria Geral da Relatividade apresentaram algumas dificuldades ao tentar explicá-los. Apesar de a Física das Partículas Elementares ter obtido muito sucesso ao se utilizar da Teoria Quântica para descrever o comportamento e as propriedades dessas partículas, essa teoria somente funciona bem quando a gravidade é tão fraca, que pode ser desprezada ou mesmo assumida a sua não existência. A Teoria da Relatividade Geral de Einstein, que engloba a Lei da Gravitação Universal de Newton, é capaz de descrever muito bem as órbitas dos planetas, a evolução das estrelas, o "Big Bang" e até os buracos negros; entretanto, para que essa teoria seja satisfeita, é necessário que o seu Universo seja totalmente clássico (Newtoniano) e que a Mecânica Quântica não faça parte da Natureza Universal. O grande desafio da Física atualmente é unificar essas duas teorias básicas: a Teoria Quântica e a Teoria da Relatividade, numa teoria completa a respeito das partículas subatômicas. Existem, atualmente, várias teorias ou modelos parciais que descrevem muito bem certos aspectos dos fenômenos subatômicos, ainda que não completamente. A Teoria das Supercordas, com certeza, também temsuas deficiências, mas ela pode servir de elo entre a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral (e a gravidade) para explicar o comportamento de partículas que interagem em um ponto singular do espaço-tempo à "distância zero" uma das outras, como acontece no interior dos núcleos atômicos. Como essas partículas tão infinitamente pequenas, com massa quase zero, e que, por esse motivo, não deveriam apresentar um efeito gravitacional forte, podem estar tão próximas umas das outras? Os físicos têm tentado encontrar uma explicação para esse paradoxo há muito tempo e costumam chamar esse efeito gravitacional, ainda inexplicável, de Gravidade Quântica.

Se a Teoria das Supercordas vier a ser considerada uma "Teoria da Gravidade Quântica", então o tamanho médio de uma corda deverá estar perto do comprimento da gravidade quântica, também chamado de Planck, que é da ordem de 10-33cm (1cm dividido por 1, seguido de 33 zeros) e para a sua vibração, que seria a origem das partículas fundamentais, causar o efeito gravitacional, complementando as explicações quânticas a respeito das partículas fundamentais e estendendo a abrangência da Teoria Geral da Relatividade de Einstein do Macrocosmo até o Microcosmo, sua tensão deverá ser da ordem de 10 toneladas (1 seguido de 39 zeros). Eu também acredito que essa teoria tenha sido, em parte, resultado de alguma inspiração, assim como todas as grandes descobertas, sejam científicas ou não; mas para chegar a essas conclusões relativas ao tamanho das "cordinhas", eles, pesquisadores, fizeram cálculos com base no valor do Comprimento de Planck, como já abordei anteriormente e, por isso, admitem que o comprimento das cordinhas seja ainda menor que essa distância, pois elas, cordinhas, foramaventadas para que a Mecânica Quântica e a Gravidade pudessem ser compatíveis, quando a distância entre as partículas fundamentais fosse tão pequena ou menor que o número estabelecido pelo Comprimento de Planck. Assim se estimou o tamanho das cordinhas sem ainda terem obtido condições tecnológicas de "enxergá-las". O mesmo artigo da Superinteressante informa ainda que se espera confirmar a existência das supercordas no acelerador de partículas do Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear, até 2005.

A Teoria das Supercordas é uma teoria ainda em desenvolvimento e não é pretensão dos físicos que ela venha a dar tudo como explicado e resolvido, com relação à origem do que é considerado como matéria; e os cientistas sabem que só o surgimento dessa teoria não os faria ter chegado ainda a qualquer limite em termos do Microcosmo. Mas nós, que, além de nos interessarmos por essas questões de ordem técnica, somos também discípulos de Allan Kardec, podemos especular e aventar para a hipótese de que, caso a Teoria das Supercordas venha a ser comprovada, nós teríamos, para alguns "milagres" de Jesus, mais uma explicação, além das já existentes, conforme eu propus no artigo "As Cordinhas", publicado na Revista Internacional de Espiritismo de março de 2000.

Esse assunto é muito complexo e, em meu pensamento, foge ao escopo do que pretendemos nós, tecnólogos-espíritas, que apenas estamos tentando cometer, cada vez mais, menos erros, em nosos aprendizados morais e intelectuais, buscando, porém, explicações que se encaixem em nossos raciocínios, ainda que estes sejam por ora muito mecanicistas. Vale a pena ressaltar também que, segundo alguns pesquisadores, a Teoria das Supercordas não é uma teoria pronta e definitiva, e ela hoje é subdividida em vários caminhos, nos quais as variáveis são as mais diversas, indo desde o formato das cordas (aberto ou fechado), o tipo de partículas elementares a que elas dariam origem (bósons, férmions ou ambos), até o número de dimensões no espaço-tempo para que a teoria fosse possível (de 10 a 26 dimensões). E nós, espíritas, ainda teríamos mais um componente a acrescentar nessa "sopa quântica": o componente moral, advindo do elemento espiritual que, sabemos nós, é quem verdadeiramente faria vibrar as cordinhas, caso elas realmente existam.

Por que meio o elemento espiritual poderia atuar sobre a vibração das supercordas? A meu ver, essa atuação se faria pelo sentimento do qual é possuidor. Porque é no seu sentimento que as ações do princípio inteligente (oriundo do elemento geral espiritual) se originam. Quando o princípio inteligente, já um espírito formado, atinge o grau de pureza no qual os meios que ele utiliza para interagir e se comunicar com os outros espíritos e com o ambiente ao qual pertence, sejam eles meios físicos, verbais ou mentais, dispensam o uso do raciocínio para serem postos em ação, ele, espírito, terá, nessa altura, as condições necessárias para cooperar no progresso de criação universal. Os espíritos que atingem tal grau de pureza são muito avançados, tanto moral, quanto intelectualmente, mas como a ação do sentimento não depende somente do conhecimento científico-intelectual, os que agem sob o comando direto do sentimento puro que abriga o amor e a caridade, conseguem, através desse sentimento, atuar sobre as cordinhas, ainda que sejam, em escala intelectual, tão ignorantes quanto nós todos encrnados nesse planeta expiatório. Sua ação sentimental será levada através da escala evolutiva dos espíritos superiores até aqueles que têm conhecimento científico-intelectual suficiente para realizar o desejo que se originou em seu coração amoroso. Daí, não sejam de se admirar as proezas realizadas pelo médium Mirabelli, descritas pelo nosso irmão Iório.

Essa teoria, se por um lado nos dá esperança de que nós podemos ser agentes fazedores de "milagres", também nos mostra que não é preciso que estejamos tão evoluídos intelectualmente para iniciar esses feitos; podemos começar agora; basta agir com o sentimento do amor e da caridade verdadeira e deixar por conta dos maestros da orquestra quântica celestial o vibrante toque das cordinhas.

Antonio de Pádua G. Barbosa, "Revista Internacional de Espiritismo", Fevereiro/2001, Págs. 025/027.




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VIII- HÁ MESMO VIDA "LÁ FORA"?


Hoje sabemos que a vida é extremamente hábil e resistente, conseguindo sobreviver tanto no fundo de lados na Antártida -- a temperaturas abaixo de 0 graus centígrados -- como nas fontes hidrotermais, onde as temperaturas ultrapassam os 100 graus centígrados! Com milhares de milhões de estrelas como o Sol na nossa galáxia, é portanto difícil imaginar que estamos sós. Muitos outros mundos repletos de vida existem pela galáxia afora. E, provavelmente, muitos deles se questionam: "haverá vida em outro planeta?"

"Poderá a Via Láctea estar repleta de vida e inteligência -- mundos chamando outros mundos --, enquanto nós na Terra estamos vivos no momento crítico em que decidimos escutar pela primeira vez?" - Carl Sagan.

O astrofísico Frank Drake, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, fez a primeira estimativa razoável do número de planetas que albergam vida inteligente no interior da nossa galáxia -- a Via Láctea --, contendo cerca de 400.000 milhões de estrelas. Fazendo uma série de rigorosos cálculos científicos, tendo por princípio o número de estrelas semelhantes à nossa, o número de estrelas com planetas, o número de planetas semelhantes à Terra, o número de planetas como o nosso, que têm vida, obteve, na sua vertente mais pessimista, o número de N = 20.000 planetas com vida inteligente no interior da nossa galláxia, segundo a sua complexa equação.


POR QUE AINDA NÃO DESCOBRIMOS CIVILIZAÇÕES EXTRAPLANETÁRIAS?

Resumindo, com base nesse número e nos nossos conhecimentos atuais, seria de esperar que o número de planetas habitados semelhantes ao nosso fosse da ordem de uma larga grandeza, só na parte do Universo por nós conhecido! Registre-se que esse cálculo diz respeito apenas a civilizações com tecnologia avançada (segundo os nossos prismas), com capacidade de usar sinais inteligentes para comunicação no Espaço. Na realidade, o número de "civilizações" deverá ser muito maior, bem como o número de planetas habitados (mas sem sociedades organizadas) poderá ser altíssimo, tendo em conta as probabilidades matemáticas.

Se os números parecem ser tão otimistas, por que ainda não se detectam outras civilizações no Espaço? "O Livro dos Espíritos" nos esclarece:

L.E. #17 - É dado ao homem conhecer o princípio das coisas?
"Não. Deus não permite que ao homem tudo seja revelado neste mundo."

L.E. #18 - Penetrará o homem um dia o mistério das coisas que lhe estão ocultas?
"O véu se levanta a seus olhos à medida que ele se depura; mas, para compreender certas coisas, são-lhe precisas faculdades que ainda não possui."

L.E. #19 - Não pode o homem, pelas investigações científicas, penetrar alguns dos segredos da Natureza?
"A Ciência lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas; ele, porém, não pode ultrapassar os limites que Deus estabeleceu." "Quanto mais consegue o homem penetrar nesses mistérios, tanto maior admiração lhe devem causar o poder e a sabedoria do Criador. Entretanto, seja por orgulho, seja por fraqueza, sua própria inteligência o faz joguete da ilusão. Ele amontoa sistemas sobre sistemas e cada dia que passa lhe mostra quantos erros tomou por verdades e quantas verdades rejeitou como erros. São outras tantas decepções para o seu orgulho."


O QUE CONDICIONA A EXISTÊNCIA DA VIDA?

Com a descoberta recente de diversos planetas em torno de outras estrelas, a questão da procura de vida extraterrestre ganhou um novo ânimo. O problema não é, como se pode prever, de fácil resolução. Para começar, é necessário definir o que é a vida. E é aqui que entram as primeiras suposições. O mais simples é considerar que "vida" significa a existência de seres tais como os que conhecemos aqui na Terra. Ou seja, cuja vida se baseia na química do carbono e que, de uma ou de outra forma, utilizam o ADN como modo de transmitir informação para os seus descendentes. Esses seres necessitam de uma série de condições físico-químicas para se poderem desenvolver e multiplicar.


UM PLANETA...

Uma condição importantíssima para a existência de vida passa pela existência de um planeta.

A "superfície" de uma estrela é demasiado quente, e o espaço interestelar é demasiado frio e vazio. A vida necessita de algo intermédio, tal como a superfície sólida de um planeta. Mas não de um planeta qualquer. Um planeta, para possuir vida, precisa reunir uma série de características. A sua temperatura, que é controlada, por exemplo, pela distância que se encontra da sua estrela, é uma das variáveis mais importantes. Se a Terra se encontrasse demasiado perto do Sol, a temperatura seria demasiado elevada. Toda a água do nosso planeta evaporaria, e as moléculas da vida seriam dissociadas. A Terra seria um planeta desértico. Pelo contrário, se se encontrasse demasiado longe do Sol, toda a água congelaria. A temperatura não seria suficiente para que as reações químicas -- que são a base da vida -- pudessem ocorrer e, mais uma vez, a vida não poderia desenvolver-se. A distância da sua estrela é, portanto, uma condição importantíssima para a existência de vida num planeta.


UMA ESTRELA...

Mas nem todas as estrelas podem abrigar planetas com vida. Em todo o Universo, o Sol é apenas uma pequena estrela "amarela". Há estrelas bem mais quentes e azuis, e outras mais frias e vermelhas. Dadas essas diferenças, a distância que um planeta se deve encontrar da sua estrela para que possa possuir vida é bastante variável. Mas não é tudo. Se a Terra se encontrasse em torno de uma estrela mais massiva, quente e azul, a quantidade de radiação ultravioleta seria demasiado elevada. À semelhança do que aconteceria se acabássemos com o ozônio da atmosfera terrestre, os raios ultravioletas destruiriam qualquer vida existente na superfície da Terra. Por outro lado, se o Sol fosse uma estrela vermelha e fria (e que emite a maior parte da radiação no infra-vermelho), a quantidade de radiação visível recebida na Terra nunca seria suficiente para que a fotossíntese pudesse ter lugar e, provavelmente, não haveria vida no nosso planeta.


UM EQUILÍBRIO...

Outra questão importante para a existência de vida é a estabilidade. Se mudarmos rapidamente as condições ambientais (o que, de resto, estamos quase a conseguir com a destruição da camada de ozônio e o efeito estufa), a vida tem dificuldade em adaptar-se. Esta precisa de um certo tempo, e só consegue sobreviver se as variações forem suficientemente lentas para que, de geração em geração, os organismos se adaptem. Ora, a órbita dos planetas em torno do Sol descreve uma elipse. Mas, no nosso caso, trata-se de uma elipse que é quase um círculo. Tal significa que a distância da Terra ao Sol se mantém aproximadamente constante ao longo do ano. Se imaginarmos que, por qualquer tipo de perturbação, a órbita da Terra passasse a ter uma excentricidade elevada, a distância da Terra ao Sol iria variar muitíssimo ao longo de um ano. Desse modo, iria igualmente variar a quantidade de radiação recebida na Terra e, conseqüentemente, a temperatura. A vida teria grandes dificuldades em se adaptar.

Estes são provavelmente alguns dos principais constrangimentos para a existência de vida tal como a conhecemos. No entanto, como estes e tantos outros obstáculos para a sua existência, a vida conseguiu desenvolver-se no nosso planeta.


A IMPORTÂNCIA...

...Da Nossa Lua

Hoje sabe-se que, por exemplo, se retirássemos a Lua de perto da Terra, esta começaria a precessar como um pião, variando a direção do seu eixo de rotação. Isso faria com que as estações variassem de forma extremamente rápida e brusca. Devemos portanto à nossa Lua não só as magníficas noites de Lua cheia, mas também a vida.


...Do Nosso Sol

Se o nosso Sol fosse uma estrela variável, cujo brilho variasse profundamente numa questão de anos, dias, horas ou mesmo minutos, a vida na Terra estaria igualmente condenada. A existência de vida necessita, portanto, da existência de um planeta que rode em torno de uma fonte estável de energia (uma estrela "semelhante" ao Sol), no qual as estações sejam relativamente estáveis.


HÁ MESMO VIDA "LÁ FORA"?

Sem dúvida alguma. Fred Hoyle, astrofísico, matemático e biólogo inglês, em seu livro "O Universo Inteligente", estudou os dados extraterrestres recolhidos e, através de criteriosas análises científicas, chega à conclusão da existência de substâncias orgânicas para além do nosso sistema solar. Hoyle chama a essa molécula, descoberta fora do nosso sistema, molécula de cianotriacetileno. Ele confirma que ela tem uma estrutura semelhante à molécula da proteína. Hoyle afirma que, ao encontrar-se essa porção orgânica para além do nosso sistema solar, não se pode discutir ou duvidar da existência ou da possibilidade de existência de vida organizada para além do nosso sistema solar. Carl Sagan ainda foi mais longe, apesar de se intitular um cientista cético e agnóstico, um crítico severo dos "cultivadores de paradoxos", como ele chamava aos que embarcavam na crendice e na especulação fácil. No entanto, em sua obra, partindo de premissas positivistas, levantou hipóteses que tocam de muito perto a Doutrina Espírita: "Não importa o nosso aspecto, aquilo de que somos feitos ou de onde viemos. Desde que vivamos neste Universo e tenhamos um talento modesto para a matemática, mais cedo ou mais tarde descobri-lo-emos. Já aqui se encontra. Está dentro de tudo. Não precisamos de deixar o nosso planeta para o encontrarmos. No tecido do espaço e na natureza da matéria, como numa grande obra de arte, encontra-se em letras pequenas a assinatura do artista. Erguendo-se acima de humanos, deuses e demônios, subsumindo zeladores e construtores de túneis, existe uma inteligência que antecede o Universo". Contudo, Carl Sagan ainda é da opinião de que deverão existir seres inteligentes com estruturas e configurações moleculares muito diferentes das nossas, apoiado em rigorosos cálculos matemáticos.

L.E. #181 - Os seres que habitam os diferentes mundos têm corpos semelhantes aos nossos?
"É fora de dúvida que têm corpos, porque o Espírito precisa estar revestido de matéria para atuar sobre a matéria. Esse envoltório, porém, é mais ou menos material, conforme o grau de pureza a que chegaram os Espíritos. É isso o que assinala a diferença entre os mundos que temos de percorrer, porquanto muitas moradas há na casa de nosso Pai, sendo, conseguintemente, de muitos graus essas moradas. Alguns o sabem e desse fato têm consciência na Terra; com outros, no entanto, o mesmo não se dá."

"A Natureza não é a única no mundo visível; devemos ter fé de que noutras regiões do espaço existam outras terras habitadas por outros povos e outros animais." - Tito Lucrécio.

Allan Kardec afirma em "A Gênese": "Que as obras de Deus sejam criadas para o pensamento e a inteligência; que os mundos sejam moradas dos seres..."

Luís de Almeida (Porto - Portugal), "Revista Internacional de Espiritismo", Outubro/2000, Págs. 425/427.



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