O CÉU E O INFERNO



Lendo-se esse livro com atenção, percebe-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte, temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na segunda parte, o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários, o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia. Estamos ante um tribunal divino. Os homens e suas instituições são acusados e pagam pelo que devem, mas agravantes e atenuantes são levados em consideração à luz de um critério superior.

Através da tarefa missionária de Kardec, a Doutrina Espírita tomava corpo rapidamente, e suas bases se solidificavam de forma concreta em seu caminho de glória. Especialmente no tocante a seu aspecto religioso, a nova ordem que então já abrilhantava o mundo iniciava-se com a preliminar constituída pelo "Evangelho Segundo o Espiritismo" e prosseguia com obra seguinte: na edição de setembro de 1865, a "Revista Espírita" publicaria, com satisfação, em sua seção bibliográfica, a notícia do lançamento do quarto livro da Codificação Espírita, "O Céu e o Inferno". Faltava apenas "A Gênese" para completar a obra da Codificação da Terceira Revelação.

Na verdade, dois capítulos de "O Céu e o Inferno" foram publicados antecipadamente na Revista: o capítulo intitulado "Da Apreensão da Morte", vigorosa peça de acusação, na edição de janeiro de 1865; e o capítulo "Onde é o Céu", no número de março do mesmo ano. Apareceram ambos como se fossem simples artigos para a Revista, mas o último trazia uma nota final anunciando que ambos pertenciam a uma "nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente". Em setembro a obra já aparecia anunciada como à venda. Kardec declara que, não podendo elogiá-la nem criticá-la, a Revista se limitava a publicar um resumo do seu prefácio, revelando o seu conteúdo. Os capítulos antecipadamente publicados aparecem, o primeiro com o mesmo título com que saíra, e o segundo, com o título reduzido para "O Céu".

Estava dado o golpe de misericórdia nos dogmas vigentes até então, produzidos por inegável sincretismo religioso com o qual se conseguira penetrar na massa impura do mundo e levedá-la às custas de enormes sacrifícios. Kardec reafirma o caráter científico do Espiritismo: como ciência de observação, a nova Doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras à luz da História, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raízes históricas, antropológicas, sociológicas e psicológicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã. Bastaria isso para justificar o Renascimento. O mergulho da Humanidade no sorvedouro medieval levou a natureza humana a um retrocesso histórico somente comparável ao do nazi-fascismo verificado no nosso tempo. Os intelectuais materialistas assustaram-se com o retrocesso do homem nos anos 40 do século XX e puseram em dúvida a teoria da evolução. Se houvessem lido esse livro de Kardec, saberiam que a evolução não se processa em linha reta; mas em ascensão espiralada. Vemos assim que, nesse livro, Kardec tem muito para ensinar, não apenas aos espíritas, mas também aos luminares da inteligência neo-pagã que perdem o seu tempo combatendo o Espiritismo, como gregos e romanos combateram inutilmente o Cristianismo. O processo espírita se desenvolve na linha de seqüência do processo cristão. A conversão do mundo ainda não se completou. Cabe ao Espiritismo dar-lhe a última demão, como desenvolvimento natural, histórico e profético do Cristianismo em nossos dias.

A leitura e o estudo sistemático desse livro se impõem a espíritas e não-espíritas, a todos os que realmente desejam compreender o sentido da vida humana na Terra. Mesmo entre os espíritas, esse livro é quase desconhecido. A maioria dos que o conhecem talvez nunca tenham realmente se inteirado do seu verdadeiro significado. Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da Humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após a morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objetivo não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo. O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida.

Comentários inspirados nas palavras de José Herculano Pires no livro "O Céu e o Inferno", Introdução, Editora LAKE.